- Ter que repor os CDs na livraria Arlequim por dois meses consecutivos
- Ouvir meu CD tocando na rua Sete de Setembro, graças à dona Margarida, da Rarity CDs, que coloca as caixas de som voltadas para a rua
- Um amigo dizendo que tem dificuldade em escolher uma só faixa como a preferida
- O amigo compositor dizendo que há tempos não gostava tanto de um CD assim
- Quando tenho cara de pau e consigo algo muito legal por causa disso - como participar do tributo aos Novos Baianos
- Conseguir uma matéria bacana no site Armazém de Cultura
- Eu e Alex terminando um vídeo meu (clipe ou de algum show) e o disponibilizando no YouTube
- Amigos e desconhecidos entrando em contato querendo comprar o CD
- O Arildo de Souza me ajudando ao fazer com que meu CD chegue a várias pessoas do rádio e imprensa
- Ser selecionada para cantar o "Choro" no Fejacan 2014, no Paraná
- Ser selecionada para a oficina Descontrole não é Caos, da Suely Mesquita
- Ser selecionada na Convocatória de Ações Culturais da Secretaria Municipal de Cultura (o primeiro edital - mesmo que pequeno - a gente nunca esquece)
- Show de lançamento cheio
- Perceber que acertei no conceito gráfico do disco ("você conseguiu fazer uma capa com seu rosto sem que ficasse brega") - valeu, Alex
- Conseguir no dia do lançamento uma matéria (com foto) no jornal O Dia - valeu Ricardo Schott e Leo Rivera
- Conseguir uma distribuição digital bacaníssima com a Nikita (Deezer, Spotify, iTunes)
- Tentar presentear um amigo com meu CD e ele fazer questão de pagar pelo disco
- Participar dos programas Encontros, ZoaSom, Armazém Cultural e Geleia Moderna (ver que certas rádios não são inacessíveis!)
- Amigos que sempre ajudam na divulgação de shows e sons pelas redes sociais
- Ser chamada para participar do CD de um artista como o Alvinho Lancellotti, e depois cantar nos shows dele
- Ser apresentada ao Ivan Bala (coordenador de programação da Roquette Pinto) pelo Ricardo Britto
- Fechar projetos com o Sopro Escritório de Cultura
- Quando uma amiga me indica para participar de um projeto bacana como backing vocal
- Ver aquele casal de amigos chegando com as caixas do meu CD, abrir uma das caixas e ver o meu trabalho pronto, pela primeira vez
Listar pequenas alegrias é importante: é exercício da gratidão, e é parar para perceber quantas coisas já alcancei. "Focar no que tenho, e não no que ainda não tenho", me recomendaram. E sigo recomendando também - é alegria na certa.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Responsabilidade II
Há
tempos escrevi aqui neste blog sobre responsabilidade. Eu escrevi
sobre atrasos e o compromisso que temos com nossos colegas de
trabalho após ter me atrasado para um ensaio (apenas 10 ou 15
minutos, mas isso já configura atraso, certo?) por estar vendo uma
peça de teatro. Refleti e achei uma sacanagem deixar colegas me
esperando porque eu estava fazendo algo “importantíssimo” (me
divertindo). A partir daí, me conscientizei um pouco mais sobre
isso. Continuo me atrasando vez ou outra, mas não por estar curtindo
“Os gigantes da montanha” no aterro do Flamengo, pode ter
certeza!
Este
assunto veio à tona novamente. Fui fazer uma gravação e fiquei
conversando com um amigo pontualíssimo, e ele disse algo bem
interessante. Ele percebe (e fica abismado com isso) que é comum,
absolutamente normal, pessoas chegarem atrasadas 40 minutos, 1 hora,
2 horas, e nem se darem ao trabalho de telefonarem para avisar do
atraso. E, pior (fechando com chave de ouro), ao chegarem, os
atrasados mandam um: “E aí, tudo bom?”, mais tranquilos do que o
Dalai Lama.
Isso
não é certo. Chegou atrasado? Minimamente, peça desculpas. Tudo
bem, todo mundo fica sem crédito no celular, nem sempre é possível
ligar, compreendo perfeitamente. (E a verdade é que com boa vontade
rola até de ligar a cobrar, pedir para alguém avisar de algum jeito
etc.) Mas, se não rolar nem isso, por favor, peça desculpas pelo
atraso. E tente não fazer isso de novo.
Levei
um bolo estes dias e me dei conta de
que não estava chocada: achei normal. Por que achei normal? Deve ser
porque eu costumava cantar com um instrumentista que sempre nos
rendia adrenalina: será que ele vem? Deve ter sido isso que me deixou cascuda neste
quesito. Nada mais me surpreende quando o assunto é falta de
compromisso.
Entendo perfeitamente o constrangimento em
dizer “não estou mais a fim, quero parar”, mas... Não estando
mais a fim, que tal correr atrás de um substituto para o trabalho?
Que tal, não achando um substituto, passar por cima do
constrangimento e se livrar de uma vez de um peso – que é o que
deve estar sendo este trabalho do qual se foge?
Pode não ser indolor na hora (dar uma má notícia, quem gosta
disso?), mas a recompensa é boa: domingos livres, comendo pipoca e
vendo filme, sem o peso na consciência (“tem gente lá não sei
onde me esperando”). Nem dá para curtir um filminho, desse jeito.
Me
toquei de que era um péssimo sinal estar acostumada a um bolo
destes, tamanho família. A verdade é: eu nunca deveria já esperar
um no-show destes. Eu
deveria ter ficado sem reação, ter sido pega de surpresa. Mas, não.
Não me abalei e corri
atrás de outra solução.
É
claro que me sinto feliz quando percebo que hoje em dia certas coisas
não me abalam, não acabam com meu dia, nem me tiram do sério. Com
minha antiga banda, por exemplo, cada atraso de um dos músicos me
deixava a ponto de explodir. Ficava indignada com a falta de
consideração, e isso estragava os ensaios, meu bom humor,
o clima geral. Com o tempo me prometi que não deixaria mais este
tipo de coisa me irritar, pois, senão, jamais teria paz. E sai mais
barato (já disse Augusto Cury) deixar isso para lá. O problema é
dos furões, não meu, eles que arquem com as consequências (filme
queimado, trabalhos escasseando).
Me
expressando assim pareço até ser super responsável e pontual,
certo? Mas já disse no início do texto que isso não é verdade.
Sou responsável, mas não pontual. Muitas vezes chego uns 10
minutinhos depois, outras raras vezes atraso seriamente. (E muitas outras vezes, chego na hora ou até
antes.) Mas sem dúvidas tomei consciência do quanto envolvemos
OUTRAS PESSOAS com nossos problemas ao nos atrasarmos, ao não
aparecermos etc. Por isso, um atraso meu sempre é acompanhado da
preocupação com quem deixei esperando – e de um sincero pedido de
desculpas.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Plágio
Há alguns dias fiquei sabendo que o rapper Criolo
teve um problema: foi acusado de plágio. Sua canção "Linha de frente",
segundo o compositor Armando Fernandes, seria plágio da composição
"Tristeza pé no chão", de autoria de Mamão (nome artístico de
Armando), gravada por Clara Nunes em 1973.
Situação muito chata, essa. E, comparando as duas
canções, de fato ambas são bastante semelhantes - o início, por exemplo, é crucial.
Bom, mas parece que os dois compositores
conversaram sobre o assunto e tudo se resolveu numa boa. Tomara que tenha sido
assim - melhor para todo mundo, né?
Por que abordo este assunto? Porque é delicado.
Porque a palavra plágio nos remete a uma coisa péssima. A algo antiético. Coisa
de pessoas com desvio de caráter. Pô, roubar a música de outra pessoa, que cara
de pau!
Mas não penso que seja sempre necessariamente
este o caso: uma sacanagem descarada. Pelo contrário.
Acho que estamos, todos nós que fazemos música,
suscetíveis a isso. Sim! Acho que qualquer um de nós pode, algum dia, compor
uma música, crente que está arrasando, e depois perceber, da pior forma
possível, que simplesmente imitou a música de alguém, sem perceber. Sem más
intenções.
Muitas vezes, graças a Deus, percebemos isso
quase que imediatamente. Fazemos uma melodia e vemos: “opa, já existe”. Perfeito.
Mas pode acontecer depois, já com disco gravado – você lá, totalmente feliz com
seu trabalho, achando que está tudo bem, e vem uma bomba dessas. Imagina? Pois
é. E, ainda por cima, contar com o julgamento de todos, que presumem que você
fez aquilo de propósito, no maior mau-caratismo.
Estes dias estive na casa do compositor Arildo de
Souza e ele me disse que, quando compõe, sempre grava a canção e a deixa “de
molho” por uns meses até ter certeza de que aquela canção é dele, mesmo, e não
a repetição de algo que já tenha ouvido, mesmo que apenas em um trecho. Esta é a
forma como Arildo lida com esta questão. Mas vários compositores não fazem
desta forma. Compõem e seguem em frente, sem pensar muito naquilo que já ficou
pronto. E pode acontecer esta situação de acusação de plágio – com os
compositores cuidadosos e com os que não são. Pode acontecer. Por isso acho importante que sejamos minimamente compreensivos.
Não sei nada sobre o Criolo (para escrever este
texto fui reler as matérias de jornal sobre o caso do plágio e deu vontade de
ouvir mais do seu som. Tô ouvindo o show dele no Circo Voador pelo YouTube enquanto
escrevo – bem legal); não faço ideia de como seja a pessoa dele, noção alguma,
zero. Mas, de verdade, acredito que esta semelhança de “Linha de frente” com “Tristeza
pé no chão” tenha sido um infeliz caso de assimilação inconsciente da melodia
do compositor Mamão. Não creio que Criolo seja tão maluco a ponto de plagiar
uma canção tão conhecida, de uma cantora tão conhecida, como se isso não fosse
dar dor de cabeça nenhuma. Teria que ser muito inconsequente, mesmo.
Na minha humilde opinião seria bacana se evitássemos (público e
músicos – principalmente músicos, e, mais principalmente ainda, compositores) o ataque a nossos colegas de profissão, aos artistas que admiramos,
àqueles que não admiramos também. Partamos do princípio de que nossa própria
cabecinha também pode nos pregar esta peça, nos fazendo acreditar que somos os
autores de algo que ouvimos certo dia, andando na rua, em um aparelhinho de
rádio ao longe, sem percebermos.
(Até hoje prefiro acreditar que Rod Stewart não
fez de propósito ao colocar no refrão de “Da Ya Think I’m Sexy” a mesma
sequência de notas do refrão de “Taj Mahal”, de Jorge Ben. Como o próprio Stewart
disse: “Unconscious plagiarism, plain and simple”. Prefiro dar o benefício da dúvida.)
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Agradar a quem?
Nem sempre é possível agradar.
Na verdade, é muito fácil desagradar – público, produtores...
E, sem dúvidas, agradar a todos é impossível.
E, sem dúvidas, agradar a todos é impossível.
A regra é: sempre haverá alguém
insatisfeito. Ponto.
Lembro de algumas ocasiões em que não agradei como cantora: pela voz, pela interpretação, pelo jeito, por isso, por aquilo. Por estar sem vontade de estar ali no momento (mea culpa); por estar felicíssima de estar lá, mas mesmo assim não agradando, porque... não agradei, oras! Acontece.
Um exemplo de uma destas ocasiões foi quando cantei, em 2010, em um projeto de forró em Laranjeiras. Acontece o seguinte: adoro forró, gosto muito de cantar este estilo e graças a Deus no meio do ano sempre trabalho bastante em festas juninas, só mandando ver nos xotes, baiões e galopes. Mas nunca fiz parte do circuito de forró, pois não tenho um trio meu; apenas canto como convidada em outros trabalhos. Talvez por isso meu trabalho de forró não tenha agradado naquela noite: eu não fiz como a maioria dos trios faz. Meu grupo não era um trio, para começar. Não tinha uma formação de zabumba, triângulo e acordeon, mas de percuteria, violão e sopro. E não cantei 15 músicas sem parar, por exemplo: fiz intervalos de 5 em 5 músicas, aproximadamente. Achei o resultado ótimo, o repertório bacana (“Bim bom”, do João Gilberto, por exemplo), mas o responsável pelo evento certamente não curtiu, pois nunca respondeu meus e-mails posteriores e comentou com o meu produtor no dia algo do tipo (não lembro exatamente) “a apresentação estava parecendo ‘show’ demais”, enquanto a proposta talvez fosse que fizéssemos algo mais próximo de uma apresentação de bar/restaurante, mais discreta e música para dançar, não para prestar atenção.
Isso é normal, hoje vejo. Na época gostaria de ter entendido melhor, mas, como já entendi, acho ok não terem gostado. Não me chateia. Acho importante que se tenha visão crítica do próprio trabalho, desde que aliando esta visão crítica às suas próprias convicções. E uma de minhas convicções é: quero fazer outros tipos de trabalho, não um trabalho de forró em uma casa de forró, onde se espera que eu faça assim e não assado. Não. Vou fazer da forma que eu achar melhor. Ou seja: não usando uma formação padronizada de músicos (a não ser que eu ache melhor assim), não cantando 15 músicas sem parar (a não ser que eu e os músicos estejamos empolgados e queiramos fazer assim) e escolhendo canções menos usuais.
Quando há este conflito de filosofias, é preciso abrir mão de alguma coisa: se não vou conseguir fazer o meu trabalho da minha forma, em um evento específico, então que eu faça meu trabalho em outro lugar, onde eu tenha liberdade total. Ou, então, posso abrir mão de fazer da minha forma e me moldar à forma pré-estabelecida pelo produtor do evento – mas isso não é uma possibilidade. Então, já sabemos qual é a única opção possível.
Outro exemplo foi quando cantei 'Joana Francesa' a pedido de uma cliente no Mercadinho São José. Ela ficou chateadíssima porque não OLHEI para ela enquanto cantava (sim, acredite, isso aconteceu: a moça reclamou, ignorando o fato de que eu nunca havia cantado a música em público antes, e estava me concentrando para lembrar a letra!). Não posso dar atenção a isso. Não posso considerar isso algo importante, nem levar isso a uma reflexão profunda. Posso simplesmente tentar ser um pouco mais comunicativa com o público, no máximo - ou, melhor ainda, não cantar algo que alguém pediu só para agradar a esta pessoa, que no final ainda ficará ressentida comigo, por pura carência.
“Quem se curva demais ao público
fica de quatro para ele, e nunca mais se ergue”, foi o comentário de Hugo
Possolo, registrado em um documentário que amo, O
riso dos outros. Concordo plenamente. Se eu quiser sempre agradar, se eu ficar
sempre preocupada com o que estarão pensando de mim, ferrou. Não poderei me
mover. Sempre haverá alguém insatisfeito com alguma coisa, ou até mesmo
irritado. Já ouvi críticas de pessoas que não são musicistas, sendo algumas destas críticas quase que ininteligíveis de tão truncadas, mas também
já ouvi críticas de "leigos" muito, muito válidas. Cabe a mim fazer o filtro, como já
mencionei em um post anterior (“Críticas, sugestões, opiniões”).
Acho importante (ao menos para
mim) que se aborde também os fracassos. Os erros, as experiências ruins, as
vaias (ainda não as recebi, mas estão aí e podem um dia chegar até mim) e as frustrações
são importantes também. Nos ensinam, mesmo que sejam fruto de uma birra ou infantilidade. Não importa. De qualquer forma, nos são úteis,
assim como todos os reveses da vida. Nos mostram que não somos invencíveis – porque
às vezes nos sentimos assim –, muito menos unânimes. Porque trabalhar com arte é
lidar com nosso próprio ego, nosso amor por nós mesmos, nossa vaidade. E alguns
episódios, como os que citei, servem para que, minimamente, lembremos: “ei, não
estou com essa bola toda!”
domingo, 27 de abril de 2014
O que aprendi com os portugueses sobre música
Estive em Portugal em janeiro. Me maravilhei com inúmeras coisas e me apaixonei pelo país de forma geral. E uma das coisas que trouxe no coração, é claro, foi o fado.
E outra coisa com a qual me maravilhei foi a forma como vi a música ser respeitada.
Certa noite fui ao Chapitô, um lindíssimo local (restaurante, bar, teatro, sede da cia homônima de teatro etc.) em Lisboa. Assim que eu e Alex chegamos o rapaz da casa nos trouxe o cardápio e explicou: “Aqui funciona assim: os músicos vão tocar três músicas. Então, SILÊNCIO. Haverá um intervalo, pode-se conversar normalmente. Depois, mais três músicas. Outro intervalo, e então mais três músicas. Ok?”. Direto, bem educado. E certíssimo.
Bebemos um licor de café delicioso e assistimos ao fado, interpretado por músicos excelentes. Muito agradável.
Acredito que aquela noite tenha sido mais especial
ainda porque pude ver o quanto a apresentação foi respeitada. Estávamos ali
para ouvir o fado, não para conversar enquanto a música era tocada (na verdade acho que não faz mesmo muito sentido disputar com o volume dos instrumentos. Não se ouve a música, nem se conversa direito.).
O rapaz que nos atendeu (o tal do “schifaizfavoire”, reza a lenda) foi direto, bem educado e esclarecedor. Não deixou margem para nenhuma dúvida: ali a atração era o FADO. Caso quiséssemos conversar – estávamos no Bartô, um dos muitos espaços do grande Chapitô – poderíamos tranquilamente ir para a área aberta e papear admirando a vista da cidade.
Na verdade,
isso não me incomoda muito quando estou no papel da cantora – ou melhor, até
hoje não incomodou. Acho que exatamente pelo fato de ter cantado muito em barzinho,
fiquei acostumada a isso (mas acho que ficarei bem chateada se alguém ficar
falando sem parar em uma apresentação minha em um teatro, por exemplo). Acho relativamente
“normal” que em um bar com música ao vivo a música seja música de fundo, muzak,
música ambiente. Aqui funciona assim, e não adianta se descabelar, acredito.
Mas achei o máximo que lá naquele local específico não houvesse nem comida (só
bebidinhas), muito provavelmente para não tirar o foco do que estava
acontecendo ali – o show. Qualquer barulhinho pode atrapalhar aquela música
acústica. O público precisa colaborar, do contrário o fado fica impraticável. Interessante
pensar que a falta de amplificação levou a esta atitude de respeito.
Portugal me impressionou muito, em muitos aspectos, e um deles foi a cultura dos portugueses. Milhares de livrarias pela cidade (tentações!), muitíssimos centros culturais, Fernando Pessoa a cada esquina, e música boa. Fomos depois à Tasca do Chico, onde há o tal do “fado vadio”. Apesar de ser vadio (“amador”), a qualidade era excelente, e o bar inteiro se calava para ouvir as músicas. Só gritava de alegria, ao final. Apesar dos bolinhos de bacalhau frios e do lugar estar sempre abarrotado de gente (culpa exatamente da boa qualidade e tradição como local de fado), a Tasca do Chico provou que realmente os lusitanos levam a música a sério.
Não estou
querendo dizer que não exista desrespeito por lá (longe de mim falar uma maluquice
dessas) ou que Portugal seja o Paraíso (mas tenho lá minhas desconfianças de
que seja... Maluca, eu?): certamente os
músicos de lá têm histórias nada bonitinhas para contar sobre perrengues na
noite e situações desconfortáveis. Mas achei bonito ver o quanto a música pode
ser tratada como coisa séria, mesmo que em ambientes descontraídos.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Na rua
Uma
das coisas que mais gostei de fazer desde que comecei a cantar solo foi me
apresentar na praça São Salvador. Sem exageros. Adorava cantar no coreto, que
desde 2008 eu paquerava, de longe (eu não entendia porque aquele espaço não era
tão usado quanto poderia ser). Daí, desde que comecei a cantar por ali, em junho de 2011, às sextas, me senti muito satisfeita – foi um pequeno sonho realizado,
afinal.
Fico
lembrando de tudo o que a praça me proporcionou: outros trabalhos – incluindo
uma viagem para o Nordeste! –, muitos contatos com grandes músicos, causos,
diversão e formação de público (sem dúvidas foi minha maior vitrine). Quando
ando pelo Flamengo e por Laranjeiras não é incomum ser abordada na rua por
pessoas que já me viram cantando no coreto e querem saber quando voltarei. Fico
bem feliz em colher estes frutos.
Infelizmente
o Choque de Ordem começou a frequentar a praça todas as sextas (não sei se em outros dias da semana também) e finalmente, depois de algumas situações chatas
– voltar para casa sem tocar etc. –, em maio de 2013 desisti de vez de cantar ali.
Mas sem traumas, foi incrível enquanto durou! E (vontade de ser otimista?), acho que talvez
estivesse mesmo na hora de parar.
Fiz
esta introdução porque ando pensando muito sobre a questão do artista nos
espaços públicos. Tenho me empolgado bastante pensando em possibilidades de
levar meu canto para a rua – e isso pode acontecer de várias formas, em diversos
formatos –, e de levar também outros tipos de expressão artística. Daí juntei
as pecinhas e entendi: era por isso
que eu gostava tanto de cantar na praça São Salvador. Porque era gratuito, porque
o público era espontâneo. Porque não havia exclusão, porque todos que quisessem
podiam estar ali. Porque aquele espaço não era de ninguém: era de todos.
Penso
que esta minha visão sobre a rua começou a se formar quando, em agosto do ano
passado, conheci o pessoal do Ocupa Lapa. A partir daí, e principalmente depois
que estive presente neste ato político-cultural, sob um sol inclemente do dia 8
de setembro (um dia perfeito!), vendo meu namorado expondo seus desenhos em
plena praça dos Arcos, vendo performances acontecendo e bandas tocando desde a
tardinha até a noite, uma semente foi plantada em minha mente.
De
lá para cá, todos os dias vejo ou sei de mais alguma coisa (intervenções
urbanas, Beach Combers no largo do Machado, Tropa do Afeto) que ratifica meu
pensamento de que isso, sim, é muito adequado: precisamos usar a rua, ela é
nossa galeria, nosso palco. E os transeuntes, diria que precisam também. Arte
no dia a dia. Arte como algo usual, não um luxo, pertencente apenas aos espaços
fechados, pagos, às vezes tão frios, apesar de maravilhosos e necessários. Mas
ocupar a rua com arte também é necessário, e urgente. Pois é vital transformar
nossa cidade, nosso mundo, e não apenas viver nele como se não tivéssemos esta
capacidade, nem este direito.
Hoje
mesmo (filosofias da hora do lanche), conversando com Alex sobre minha
resistência em ser romântica em relação à arte, confessei que, de fato,
percebia o quanto a arte fazia com que nós nos tornássemos mais sensíveis e
humanos, mais unidos, com menos medo de sermos piegas. Podemos chorar, rir, e isso
irá nos libertar. E não há dúvidas de que o mundo precisa de mais
sensibilidade. Precisamos nos aproximar, precisamos nos entender melhor, e
agora vejo que a arte pode nos ajudar muito.
Há
anos vi um vídeo do Badly Drawn Boy tocando na rua, em frente à estação de trem
Waterloo. Fui catar o vídeo na internet há uns dois meses, já pensando bastante
nestas questões do artista na rua e, ao rever, concluí: “Vou imitar esta ideia
assim que der.” Cantar em algum canto do RJ e depois fazer um vídeo disso. Mostrar o desprezo, a receptividade, a indiferença, o encanto. O que importa é comunicar, levar para a rua! Ela é nossa, mesmo que, infelizmente,
carreguemos intimamente uma leve impressão de que “não pode”. (Estou lutando contra esta sensação e entendendo aos poucos que "é tudo nosso". E escrever este texto é uma forma de fazer com que isso fiquei ainda mais claro para mim.)
Um último caso, para fechar: pouco
antes do carnaval Alex decidiu fazer o lançamento do livro dele aqui no Rio - já tinha
acontecido um, em Niterói -, escolhendo para isso um local muito bacana: a supracitada praça São
Salvador. Quebrando a cabeça para ver um local que não fosse caro, nem pouco acessível, nem desconfortável, resolveu botar o bloco (ou livro) na rua de uma vez. Decisão acertada! Foi uma noite muito gostosa: no mesmo horário do lançamento estava acontecendo um show do amigo Fabão, que
cantava marchinhas no coreto, e neste mesmo dia Alex expôs seus desenhos nos pilares de madeira do coreto, assim que o show terminou. Ou seja, a praça foi utilizada de todas as
formas possíveis: como museu, como palco, como livraria. Voltamos para casa
felizes, na verdade deslumbrados, percebendo que tudo parecia cada vez mais
fácil, acessível, mais a nosso alcance. Sensação de liberdade e desprendimento, que a rua tão generosamente nos dá.
sábado, 8 de março de 2014
Presentes musicais
Hoje
estava ouvindo Tincoãs e pensei: que presente ganhei ao ser apresentada ao som
deles! Tive uma real sensação de sorte por estar ouvindo aquelas vozes. Este
grupo vocal, sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar antes de 2009, só chegou
a mim porque um amigo achou que aquela mistura Brasil-África iria me agradar.
Na mosca: amei.
Lembrei,
então, que este foi um dos muitos presentes musicais que já ganhei. E pensei
mais uma vez que, de todos os regalos que já recebi na vida, creio que aqueles
ligados à música tenham sido os maiores.
No Natal
de 2006 ganhei um grande presente do meu irmão mais novo, que me colocou para
ver em seu aparelho de MP4 um rapaz tocando uma música linda no violão de aço:
era Richard Taylor, tocando “Gorthon”. Fiquei emocionadíssima ao vê-lo
interpretando com perfeição aquela música ao mesmo tempo delicada e forte. Eu
tinha tido um dia difícil, e à noite ganhei este presentão para lavar a alma.
Quando
eu tinha 16 anos, meu irmão mais velho, sabendo que eu andava cabisbaixa
(adolescência, vocês sabem como é!), me deu um presente-surpresa: ele e a então
namorada iam ao show do Djavan no atual Citibank Hall (à época, ATL Hall) e eu,
morrendo de vontade e sem grana para ir, soube na véspera que iria no lugar
dele. Esta atitude incrível, onde ambos deixaram de estar juntos apenas para me
ajudar – ele inclusive se privando de ver um showzaço –, me deixou radiante:
fui ao show do artista pelo qual eu estava mais fascinada na época, cantei
junto, me enchi de energia boa. Para completar, bati muito papo, me distraí, me
senti feliz e amada. E Djavan ainda tocou “Se” duas vezes, só para que a noite
ficasse ainda mais perfeita.
Badly
Drawn Boy é outro presente que ganhei. Obrigada, Ricardo, por ter me
apresentado a este e a tantos outros grupos/cantores maravilhosos. Este meu
ex-chefe tem um gosto musical tão incrível que nem sei como ele não trabalha
com isso, como crítico ou algo do tipo. Com ele, conheci Rosalia de Souza, “Transa”
e “Livro”, do Caetano, Sergio Mendes, as maiores pérolas do Gil, João Donato e
seu “Quem é quem?”, Tommy Guerrero (OBRIGADA!) e o maior presente de todos:
Itamar Assumpção. Valeu! (Não bastasse isso tudo, foi Ricardo quem um dia me
avisou sobre um show gratuito da Rita Beneditto na Modern Sound – e lá fui eu,
toda serelepe, depois do trabalho, ver pela primeira vez minha cantora
preferida ao vivo.)
O Maurício,
da Baratos da Ribeiro, também devia estar trabalhando como crítico – se é que não
está fazendo isso e eu não sei! –, pois, apesar de várias trilhas da loja não
serem exatamente a minha praia, posso dizer que ouvi Ednardo e “A manga rosa”
pela primeira vez na Baratos, bem como Sergio Godinho (“Com um brilhozinho nos
olhos”), Kings of Convenience e Doris Monteiro. Foi ele, também, quem disse que
o primeiro disco do Ivan Lins era incrível. Fui ouvir depois, na internet, e
confirmei: realmente era absurdamente bom. Agradecida!
O Vitor,
ex-baterista do Pic-Nic (banda na qual cantei por cinco anos), me apresentou
aos Secos & Molhados, gravando os dois primeiros discos deles em um CD
virgem. Ouvi muito, muito mesmo, ficando totalmente viciada naquelas melodias
lindas. Ia ao trabalho e a qualquer lugar, todos os dias, com aquele disquinho
no meu CD player.
A
verdade é que são incontáveis os presentes: Bethi, ao tocar “Clarice” para mim, no violão (“você não
conhece?”); Alex, ao colocar no aparelho de som o CD “Le fil”, da Camille; Fabão,
ao cantar “Mas quem disse que eu te esqueço”; Ná Ozzetti, ao cantar no festival
de Tatuí de 2011 e me pegar de surpresa com aqueles arranjos e aquela voz
(pensei que eu só iria cantar, e não sair de lá com um novo ídolo); Sansão, ao
nos mostrar o Ponto de Partida cantando “Circo marimbondo”; Daíra, ao cantar “Cicatrizes”
naquele estúdio caseiro; Paulinho, ao chamar minha atenção para a letra de “Meu
guri”; Tiago e Rodrigo, ao me mostrarem o vídeo de Roberta Sá cantando “Pelas
tabelas”; Marcelo, ao me levar para ver a mesma Roberta com o Trio Madeira
Brasil no Circo Voador.
E o
melhor de tudo em relação a estes presentes é que, por serem imateriais, nenhum
ladrão pode levar. E, como não ocupam espaço na gaveta... que venham mais!
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