sábado, 27 de dezembro de 2014

Implacável

Concluí por estes dias, depois de ler alguns comentários ferozes nas redes sociais, que não quero mais ser implacável. Porque a cada dia que passa vejo que há menos razões para sermos tão rígidos uns com os outros.
Estou falando, especificamente, do mundo da música, que é o universo pelo qual circulo.
Vejo pessoas fazendo comentários (na web e ao vivo também) bastante duros em relação a outros profissionais. “Banda do Mar é uma b...”, “A Simone é chata pra c...” etc. Ao escrever este texto, vi o post de alguém dando uma zoada nos Golden Boys, a troco de nada. Fico mais chocada ainda quando se trata de alguém que é músico proferindo uma destas frases. Será que quem solta estas pérolas não pensa que é bem provável que seja tratado com o mesmo “carinho” algum dia? Porque se esta pessoa conseguir alguma projeção, isso acontecerá, inevitavelmente. Quem está em destaque vira alvo fácil para ataques.
Talvez desde sempre tenha sido assim, mas a internet está auxiliando a divulgar este tipo de animosidade, fazendo com que se espalhe cada vez mais intolerância.
Pode parecer algo bobo, mas esta vontade de falar mal, de “malhar”, de dar uma sacaneada acaba desunindo a todos, e, vamos pensar: precisamos disso? Precisamos, sim, de críticas, porque estas nos ajudarão muito a crescer. Mas não precisamos de maledicência, implicância, falta de paciência. Tudo isso aí, infelizmente, já tem de sobra em nosso dia a dia. 
Pensemos: é tão difícil assim não falar daquele artista que você acha uma mala sem alça? É tão difícil assim não sair digitando impropérios quando bater uma raiva daquele músico que você acha bem ruim? É tão difícil assim dar uma força pro artista que você GOSTA, e não para aquele que você desgosta? Sim, porque falar sobre alguém é divulgar, é propagar.
Adoraria não ser linchada se algum dia me desse na telha cantar aquela música beeem brega. Adoraria fazer maluquices musicais e nem por isso virar um boneco de Judas. Adoraria meter os pés pelas mãos, na ansiedade, e ver que ninguém morreu de raiva pela mudança. Adoraria que respeitassem minhas opções, vontades, ou erros.
Criticar sem hostilidade é bom para todo mundo. Todo saem felizes. 
                Termino o texto colocando um exemplo de como já tive - e devo continuar tendo, sem perceber, infelizmente - atitudes implacáveis e nada construtivas. Neste print de uma postagem de 15 de janeiro de 2012, meto o malho nas cantoras internacionais. Eita!  
Há uma frase bem piegas, mas que na minha opinião faz bastante sentido: “promova o que te encanta ao invés de atacar o que te desagrada.”
(E, a bem da verdade, gosto muito de ser piegas.)



                                                                  Mea culpa: um momento implacável

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Então é Natal... e o que eu fiz?



              Neste final de ano reparei que foram acontecendo várias coisas boas, em fileira. Será que foi resultado das sementes que fui plantando durante o ano? Só sei que resolvi, então, enumerar todas as coisas boas de 2014 (e não só as do final do ano), como forma de demonstrar minha gratidão e reconhecer que esta luta, quando persistente, sempre tem resultados animadores. Eu, que achava que 2013 havia sido um ano incomparável, pude perceber que 2014, no quesito trabalho, foi beeeeem mais produtivo.

JANEIRO:

- Apresentação voz e violão na Ler Devagar, em Lisboa.

MARÇO:

- Gravei o vídeo de “Malabares com farinha” (do Sandro Dornelles e Paulo Monarco) com Adaury Jr no acordeon, aqui na sala de casa.  

MAIO:

- Participei do show de Jurandy da Feira com a canção “Canto a natureza”. Foi o lançamento do CD Outras cantorias, no Centro Cultural Justiça Federal.
- Gravei “Cabotino coco”, de Mauro Aguiar e Chico Saraiva, com a ilustre presença de Marcel Powell no violão. Fiz um vídeo com os bastidores das gravações.
- Cantei no ato político-artístico Ocupa Lapa, coisa que queria fazer já um tempinho. Me apresentei em um formato novo (teclado, baixo e bateria) ao lado de um trio da pesada: Adaury Jr., Rodrigo Ferrera e Vitor Vieira.

JUNHO:

- Fui contemplada pelo edital da Secretaria Municipal de Cultura (Convocatória de Ações Culturais), o que me rendeu uma data no Centro Municipal de Referência da Música Carioca. Iêba!!!

JULHO:

- Este mês foi marcante: lancei meu CD no Sergio Porto! Um show lindo, cheio, com convidados especiais: Mauro Aguiar, Adriano Siri e Dudu Godoi! E puxei o Sandro Dornelles para o palco no bis. Um dos dias mais felizes da minha vida.
- No dia do lançamento Ricardo Schott escreveu uma matéria sobre o show no jornal O Dia.
- Participei do programa Encontros, de Ricardo Brito, na rádio Roquette-Pinto.
- Resenha do CD na revista Música Brasileira.

AGOSTO:

- Fiz quatro shows no Semente, às quartas-feiras, com um formação reduzida: violão, baixo e bateria. Convidei Jurandy da Feira, Dudu Godoi e Pedro Logän.
- Participei do programa Armazém Cultural, na rádio MEC, apresentado por Tiago Alves, simpatia pura.

SETEMBRO:

- Resenha do CD na revista JG News.
- Pedro Logän escreveu em sua página de artista, sobre o meu CD: “voz doce, suave, educada, com entradas certeiras, sem titubeios, buscando cada viés da melodia, com presença e interpretação que, eu, pelo menos, tenho visto pouco nas cantoras que despontaram na última década, que ou passam do ponto com exageros ou se omitem em interpretações insossas.
- Fechei uma parceria com a Nikita, que fez a distribuição digital do meu CD (iTunes, Deezer, Spotify...).
- Participei do programa Geleia Moderna, do Jorge LZ e Brant, na rádio Roquette-Pinto. Fiquei duas horas no estúdio batendo papo, ouvindo músicas maneiríssimas, falando sobre o meu trabalho e divulgando as faixas de Temperos.

OUTUBRO:

- Participei do show Gatas extraordinárias, de Rodrigo Rodrigues, cantando “Mapa do meu nada”, no SESI Graça Aranha,
- Participei do programa ZoaSom, da Roquette-Pinto, cantando três canções com a banda compacta: bateria, baixo e violão.
- Participei do “Descontrole não é caos”, workshop-oficina com a grande Suely Mesquita. Foram três dias de imersão, maravilhosos, onde, além de receber dicas preciosas dela e dos outros cantores, bati papo com meus colegas de profissão, que me ajudaram muito – sem saber – a entender alguns aspectos mais práticos do meu trabalho (ensaios, grana etc.).

NOVEMBRO:

- Participei do show de Caio Márcio no Fixos Fluxos.
- Cantei com Silvan Galvão no Puxirum, evento carimbolesco no La Carmelita, na Lapa. Amei!
- Cantei no show Tinindo Trincando, um tributo aos Novos Baianos, no Da Leoni, em São Paulo. Cantei com Flávio Tris a canção “Cosmos e Damião” e troquei ideias e CDs com ele, Mariana Volker, Matheus von Krüger... Valeu, Jardim Elétrico!
- Cantei o “Choro” no Festival Jacarezinhense da Canção, no Paraná. Ivan Lins fechou a noite! 
- Cantei no show “Descontrole”, no Godofredo. Foi um show coletivo, com solistas e ouvintes do “Descontrole não é caos”, e participei com “Choro sem parcimônia”, do Sandro Dornelles (sempre ele!) e Carlos Scherer.

DEZEMBRO:

- Participei do show de André Gardel na sala Baden Powell como backing vocal, ao lado da Nayana Torres. Virei fã do Gardel!
- Cantei de novo com Silvan Galvão no Puxirum. Ô sorte!
- Saiu o Tributo aos Novos Baianos, Tinindo Trincando, pelo site Jardim Elétrico. Neste tributo participei com a canção “Cosmos e Damião”. Também participaram Fernando Temporão, Larissa Baq e Daniel Peixoto, entre muitos outros. Só no primeiro dia foram mais de mil downloads! 
- Matéria generosa nos jornais Metrô News e Folha Metropolitana, por Dery Santos.
- Matéria super bacana no site Kult Me, onde Maurício Bonas chamou Temperos de “álbum perfeito” e descreveu as canções lindamente.
- Cantei com o Adaury Jr. Trio no Rosal Music Conference, em Rosal/RJ. Fechou com chave de ouro o ano de 2014, pois foi um dos shows mais lindos que já vi/participei. Sensação boa que durou dias, e que espero levar comigo para 2015. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Então misture tudo


Ontem ouvi uma frase que posso dizer que sintetiza tudo aquilo que eu não acredito.
“Você está misturando demais. É preciso escolher um caminho”.
Xi... Não vou fazer isso, não. Quero exatamente o contrário, na verdade.
A cada dia que passa desejo misturar mais, e isso acontece porque a cada dia que passa conheço mais coisas, vejo novos estilos, me deparo com artistas diferentes, e tudo isso me inspira. E, principalmente, a cada dia que passa tenho mais certeza de que tudo é permitido no meu trabalho: nele, posso fazer o que eu quiser.
Se eu me estabelecesse como uma cantora romântica, por exemplo, talvez fosse mais fácil, porque desta forma o público poderia esperar sempre o mesmo estilo, era satisfação garantida. Mas não posso me pautar por uma suposta decepção de quem gosta do som que faço hoje. E tenho certeza que este desapontamento vai rolar, cedo ou tarde, uma vez que eu não pretendo passar minha vida toda fazendo uma só coisa. Até poderia agir assim, porque o que faço agora me agrada bastante, mas tenho certeza de que vou querer e já quero outras coisas, também. 
Tenho vontade de gravar canções do Ednardo. Tenho vontade de colocar um pouco do rock, que é o meu berço, no meu trabalho. Tenho vontade de gravar uma canção do Caetano por disco. Não estou fechada à ideia de algum dia fazer um trabalho temático sobre religião. Não estou fechada a nada.
Soube que quando o grupo The The gravou o CD Hanky Panky os fãs não curtiram o fato de Matt Johnson, o dono do projeto, gravar canções de Hank Williams, ícone da música country. Este CD (maravilhoso, não deixem de ouvir), é tão incrível que fico pensando: vale a pena implicar com este trabalho só porque, a princípio, ele é diferente dos outros trabalhos da banda? Apenas escute! Não se ligue nos fatos (se é country, se não é, se não faz sentido, se Matt nunca deveria gravar um cantor norte-americano por ser tão radicalmente contra o imperialismo estadunidense). A música é boa, e isso é o que importa.
Já pensei em fazer um disco só de forró, algum dia. Mas também já pensei em gravar um disco com o que a MPB fez de mais roqueiro (“Fairy Tale Song”, “Chuck Berry Fields Forever” etc.). Isso é misturar “demais” para uma só pessoa? “Demais”, no sentido de excesso, para mim, não. De onde veio este “não pode”? Não consigo deixar de pensar que esta atitude deve atrapalhar não só a arte de quem pensa assim, mas sua vida inteira.
(E não consigo deixar de pensar que, inclusive, esta atitude tem muito a ver com a resistência aos tempos em que vivemos – tempos onde cada vez mais estamos quebrando barreiras e questionando exatamente o que está estabelecido, e falido. De fato, todas as nossas ações e falas são políticas...)
Gal Costa, uma cantora que adoro, já gravou de tudo e fez o que bem entendeu. Em 1969, então, não teve medo do experimentalismo – o que, segundo o pensamento de quem me deu o grande conselho de não misturar, talvez não fosse “bom” para a carreira dela –, e é uma das cantoras mais respeitadas do Brasil. Caetano, meu grande ídolo, o que seria dele se nunca ousasse gravar Beatles, ou formar a banda Cê, ou pintar no festival de 1967 com a guitarra distorcida dos Beat Boys para cantar “Alegria, alegria”? O que seria de nós sem o prazer de ouvirmos as doideiras impactantes de Araçá azul, disco que, dizem, teve 30% de devoluções por parte dos compradores? Será que Caê deveria ter permanecido nas canções, sem os recortes do disco citado (que, mais tarde, se tornou um dos álbuns mais emblemáticos e amados pelos fãs de Veloso?).
Música é tudo aquilo que desejarmos. Nela, fazemos o que bem entendemos. Bem disse o crítico de música Antonio Carlos Miguel: “Tem gente que quer só ouvir a coisa redondinha, pronta. Eu acho que música não tem que ter limite”.
Quando criança, às vezes ia à praia depois da aula e dizia à minha irmã: “olha que maravilha, aqui, se eu quiser, posso gritar muito alto!” E não gritava, que eu me lembre, porque só a sensação de poder fazer aquilo já era o máximo. Naquela praia vazia, eu não estaria desrespeitando ninguém, só me expressando, brincando. Coisa boa!
E acho que a arte é um pouco isso: uma praia vazia onde podemos brincar à vontade. Eu, que escrevo este texto, tenho bastante dificuldade em me soltar em vários momentos, mas sei que o que me impede é uma grande besteira, pois a praia está vazia, ninguém será desrespeitado por minhas iniciativas. Posso tocar um bolero, depois uma salsa, depois um baião e fechar com um blues. É problema meu, e, olha que coisa boa, ainda vai ter gente que irá se identificar e gostar (ainda que seja uma só pessoa, mas sempre há quem esteja na mesma sintonia que você).

Acho que tudo tem um motivo, e penso que o papel do senhor que me deu o conselho que jamais vou seguir era o de exatamente me fazer lembrar que os limites que me imponho são totalmente transponíveis. E que devo, cada vez mais, misturar e misturar, sem parar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Mateus Aleluia - um encontro




Semana passada fui assistir à peça de um amigo no Sesc Ginástico. Vendo os cartazes com a programação do mês de novembro, não acreditei: Mateus Aleluia, ex-Tincoãs, iria se apresentar naquele mesmo teatro, na semana seguinte.
Sou fã incondicional dos Tincoãs e fiquei animadíssima. Havia pensado, pouco antes de saber deste show, que se algum dia quisesse conhecer o único remanescente dos Tincoãs (ao menos o único que gravou discos com o grupo – Erivaldo Brito, da primeira formação, não chegou a gravar nenhuma faixa com os Tincoãs) teria que ir a Angola, onde ele morava. Depois descobri que ele estava atualmente na Bahia. Mais perto, que bom! Mas saber que ele estaria aqui, no Centro do Rio, em um show com entrada franca, ainda por cima, foi só alegria.
Mateus, um verdadeiro príncipe no palco, todo vestido de branco, mostrou uma apresentação muito diferente daquilo que costumo ver. Quando saí de casa, pensei que às 20h15 ou 20h30 estaria “liberada”, pois o show estava marcado para as 19h. Mas a apresentação foi até as 21h30, e eu, que a esta altura já havia entendido que aquilo que acontecera também era uma forma de esquecermos o tempo lá fora e nos entregarmos, não iria embora antes de poder dar um abraço neste homem que, com sua voz grave e sua percussão, abrilhantou canções dos Tincoãs como “Canto e danço pra curar” e “Promessa ao Gantois”, verdadeiras pérolas, e que havia me dado um grande presente naquela noite.
Foi impossível conter as lágrimas ao ouvir Mateus cantar “Cordeiro de Nanã” ou ao ouvi-lo falar sobre paz e a força do bem. Foi impossível não ficar impressionada com aquela palestra musical (este, aliás, é o termo utilizado para definir o projeto; a proposta é esta, e não um show convencional) onde a sutileza era marcante e onde a informalidade (termo utilizado pelo próprio) proporcionava um gostoso clima de conversa – mesmo que a presença de Mateus impusesse uma solenidade e um respeito inquebrantáveis.
Falo de sutileza porque aquela grande banda (em quantidade e qualidade) – uma voz feminina, uma percussão, um baixo acústico, uma guitarra e dois sopros – em muitos e longos momentos apenas aguardava o comando de Aleluia, que contava suas histórias sobre a África com toda a tranquilidade e as recortava com canções em dialetos africanos, ou o “Samba da benção” e até “Deixa a gira girar” (um carinho para os fãs dos Tincoãs). Todos eram grandes músicos, indubitavelmente, pois respeitavam o conceito do show e a força/delicadeza deste. Tudo aparecia na hora certa: não havia excessos, mesmo que algumas músicas tivessem uma forma cuja repetição era quase mântrica.
Na metade do show, Mateus chamou ao palco um amigo da Bahia, que nos contou sobre o Recôncavo Baiano e as tradições religiosas da região (em especial, o cortejo em homenagem à Nossa Senhora da Boa Morte), e logo depois um pequeno documentário foi projetado no palco. Sim, saí de casa para ver Mateus Aleluia e voltei com o seguinte saldo: conheci histórias, ouvi lindas músicas, assisti a uma palestra e vi um filme.
Tirei foto com Mateus, dei meu CD a ele – que, simpaticíssimo, pediu um “chamegão”, ou seja, um autógrafo (EU dei um autógrafo a Mateus Aleluia, acho que invertemos a ordem das coisas!) – e saí do Sesc Ginástico pensando que este grande artista, que desde a década de 70 está fazendo música da melhor qualidade, de fato merece todo o respeito e reconhecimento que tem. Merece, também, muito mais conhecimento por parte das pessoas: o teatro do Sesc Ginástico deveria estar lotado, apinhado de gente. Mas isso é assunto para outro texto.
O amigo de Aleluia que falou sobre o Recôncavo, pouco antes de terminar sua fala, disse que na opinião dele os músicos estavam mais perto de Deus. Não sei se concordo 100% com isso, pois não gosto muito de pensar que os artistas são especiais, melhores do que os que não produzem artisticamente, apenas por serem artistas. Mas acredito que Mateus Aleluia, sim, está tão conectado com sua espiritualidade (que é evidente em sua música e até em suas palavras) que nos leva com ele nesta viagem, neste encontro com o que temos de melhor dentro de nós. Criou-se ali um universo de magia e religiosidade, um ambiente onde sentia-se a música em sua forma mais conectada com nossas almas – e esta maneira de fazer arte é uma forma que me agrada muito. Conectar, nos tornar mais humanos ao nos levar para perto do que temos de mais sensível – ou seja, aquilo que temos de melhor.


domingo, 26 de outubro de 2014

Descontrole não é caos

                 Nos dias 22, 23 e 24, aconteceu no Espaço Sesc, em Copacabana, a oficina “Descontrole não é caos”, coordenada por Suely Mesquita. Nós, 20 cantores populares selecionados para esta incrível oportunidade, tivemos 30 horas para pirar e ao mesmo tempo focar. Conscientizar e deixar rolar. Se jogar! “Mico é vida”, disse Suely. Era aquele o momento onde nós todos não podíamos apenas ter boas vozes. Era preciso mais. Era preciso tentar entrar em contato com a própria essência, sem medo.
Cada solista deveria escolher uma canção para ser trabalhada. Escolhi propositalmente uma canção que nunca havia cantado, e, é claro, começou a bater um pânico de dar branco na hora. Ao final do 1º dia de oficina (eu só cantaria no 2º e 3º dias), expus minha preocupação a Suely, que me deixou totalmente livre para escolher outra, mas ao mesmo tempo disse algo fundamental para que eu permanecesse com a mesma canção: “Se o branco for uma questão importante para você, faça, pois aqui é o espaço para trabalhar exatamente este tipo de coisa”. Taí: esta forma de abordar o branco (e nervosismos em geral) era inédita. E libertadora.
Fiz o “Choro sem parcimônia” duas vezes e pude saber de algumas coisas que demoraria bastante para descobrir sozinha. Que posso colocar mais comicidade e alegria nesta canção sarcástica que lamenta e que ri de si. Que posso explorar mais o palco. Que posso compartilhar mais com o público e que é interessante que as pessoas entendam esta história desde o início, pois o texto é muito importante nesta canção quase falada. Que às vezes menos pode ser mais, é que uma expressão corporal menos expansiva pode, ironicamente, fazer a cena e a intenção crescerem (e foi o que senti).
Suely nos dizia sempre que necessário: “A perna treme? Deixe tremer.” “Use suas mãos trêmulas na canção, coloque esta tensão no que você está fazendo.” “Não tente ignorar o nervosismo, nem fingir que não está acontecendo.” Mas quando nossa vizinha maluca – aquela vozinha chata que nos atormenta quando estamos inseguros: "vai errar! vai errar!" – começar a querer aparecer, aí sim, ignore. Deixe falar, sem dar atenção.
A cada apresentação dos solistas, os outros solistas e os ouvintes escreviam bilhetinhos para dizer o que achavam de bom na apresentação e também o que podia melhorar. Não jogo estes bilhetinhos fora nem que me paguem: são como o mapa da mina.
Tantas coisas ficaram e ainda vão reverberar muito, tenho certeza.
Zélia Duncan cantando “Nega música”, me dando saudades do Itamar (momento de escrever “choro preso” no grande mural de papel onde registrávamos nossas sensações e percepções).
Bethi me dando a mensagem: brinque mais! Música é para brincar!
Adriana me dizendo: procure o chão, plante os pés, conecte-se!
E um ponto muito importante que enxerguei neste curso: vi ao final destes três dias de curso em intenso contato com outros 19 solistas que muitos de nós temos (ou tínhamos) medo de mostrar aquilo que criamos. Muitos compõem, mas têm vergonha de mostrar as próprias canções. Me incluo nisso: tenho escrito pouco, e este pouco não mostro a ninguém. Ao final do curso, nos reunimos na casa de um dos solistas e ficamos cantando, curtindo e conversando, e foi o momento onde alguns cantores conseguiram mostrar um pouco do que faziam. Em um ambiente de festa, ficaram mais à vontade para “confessar”: eu componho. E olhe só esta minha canção. 
Descontrole não é caos. E “controle não é cais”, como um dos participantes muito bem escreveu no mural de papel. Deixe sair do tom, esqueça a letra, chore sem culpa, ria à vontade. Mostre sua música.
Se deixar descontrolar é se encontrar.





sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pequenas alegrias de uma cantora independente

- Ter que repor os CDs na livraria Arlequim por dois meses consecutivos
- Ouvir meu CD tocando na rua Sete de Setembro, graças à dona Margarida, da Rarity CDs, que coloca as caixas de som voltadas para a rua
- Um amigo dizendo que tem dificuldade em escolher uma só faixa como a preferida
- O amigo compositor dizendo que há tempos não gostava tanto de um CD assim
- Quando tenho cara de pau e consigo algo muito legal por causa disso - como participar do tributo aos Novos Baianos
- Conseguir uma matéria bacana no site Armazém de Cultura
- Eu e Alex terminando um vídeo meu (clipe ou de algum show) e o disponibilizando no YouTube
- Amigos e desconhecidos entrando em contato querendo comprar o CD
- O Arildo de Souza me ajudando ao fazer com que meu CD chegue a várias pessoas do rádio e imprensa
- Ser selecionada para cantar o "Choro" no Fejacan 2014, no Paraná
- Ser selecionada para a oficina Descontrole não é Caos, da Suely Mesquita
- Ser selecionada na Convocatória de Ações Culturais da Secretaria Municipal de Cultura (o primeiro edital - mesmo que pequeno - a gente nunca esquece)
- Show de lançamento cheio
- Perceber que acertei no conceito gráfico do disco ("você conseguiu fazer uma capa com seu rosto sem que ficasse brega") - valeu, Alex
- Conseguir no dia do lançamento uma matéria (com foto) no jornal O Dia - valeu Ricardo Schott e Leo Rivera
- Conseguir uma distribuição digital bacaníssima com a Nikita (Deezer, Spotify, iTunes)
- Tentar presentear um amigo com meu CD e ele fazer questão de pagar pelo disco
- Participar dos programas Encontros, ZoaSom, Armazém Cultural e Geleia Moderna (ver que certas rádios não são inacessíveis!)
- Amigos que sempre ajudam na divulgação de shows e sons pelas redes sociais
- Ser chamada para participar do CD de um artista como o Alvinho Lancellotti, e depois cantar nos shows dele
- Ser apresentada ao Ivan Bala (coordenador de programação da Roquette Pinto) pelo Ricardo Britto
- Fechar projetos com o Sopro Escritório de Cultura
- Quando uma amiga me indica para participar de um projeto bacana como backing vocal
- Ver aquele casal de amigos chegando com as caixas do meu CD, abrir uma das caixas e ver o meu trabalho pronto, pela primeira vez

Listar pequenas alegrias é importante: é exercício da gratidão, e é parar para perceber quantas coisas já alcancei. "Focar no que tenho, e não no que ainda não tenho", me recomendaram. E sigo recomendando também - é alegria na certa.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Responsabilidade II

Há tempos escrevi aqui neste blog sobre responsabilidade. Eu escrevi sobre atrasos e o compromisso que temos com nossos colegas de trabalho após ter me atrasado para um ensaio (apenas 10 ou 15 minutos, mas isso já configura atraso, certo?) por estar vendo uma peça de teatro. Refleti e achei uma sacanagem deixar colegas me esperando porque eu estava fazendo algo “importantíssimo” (me divertindo). A partir daí, me conscientizei um pouco mais sobre isso. Continuo me atrasando vez ou outra, mas não por estar curtindo “Os gigantes da montanha” no aterro do Flamengo, pode ter certeza!
Este assunto veio à tona novamente. Fui fazer uma gravação e fiquei conversando com um amigo pontualíssimo, e ele disse algo bem interessante. Ele percebe (e fica abismado com isso) que é comum, absolutamente normal, pessoas chegarem atrasadas 40 minutos, 1 hora, 2 horas, e nem se darem ao trabalho de telefonarem para avisar do atraso. E, pior (fechando com chave de ouro), ao chegarem, os atrasados mandam um: “E aí, tudo bom?”, mais tranquilos do que o Dalai Lama.
Isso não é certo. Chegou atrasado? Minimamente, peça desculpas. Tudo bem, todo mundo fica sem crédito no celular, nem sempre é possível ligar, compreendo perfeitamente. (E a verdade é que com boa vontade rola até de ligar a cobrar, pedir para alguém avisar de algum jeito etc.) Mas, se não rolar nem isso, por favor, peça desculpas pelo atraso. E tente não fazer isso de novo.
Levei um bolo estes dias e me dei conta de que não estava chocada: achei normal. Por que achei normal? Deve ser porque eu costumava cantar com um instrumentista que sempre nos rendia adrenalina: será que ele vem? Deve ter sido isso que me deixou cascuda neste quesito. Nada mais me surpreende quando o assunto é falta de compromisso.
 Entendo perfeitamente o constrangimento em dizer “não estou mais a fim, quero parar”, mas... Não estando mais a fim, que tal correr atrás de um substituto para o trabalho? Que tal, não achando um substituto, passar por cima do constrangimento e se livrar de uma vez de um peso – que é o que deve estar sendo este trabalho do qual se foge? Pode não ser indolor na hora (dar uma má notícia, quem gosta disso?), mas a recompensa é boa: domingos livres, comendo pipoca e vendo filme, sem o peso na consciência (“tem gente lá não sei onde me esperando”). Nem dá para curtir um filminho, desse jeito.
Me toquei de que era um péssimo sinal estar acostumada a um bolo destes, tamanho família. A verdade é: eu nunca deveria já esperar um no-show destes. Eu deveria ter ficado sem reação, ter sido pega de surpresa. Mas, não. Não me abalei e corri atrás de outra solução.
É claro que me sinto feliz quando percebo que hoje em dia certas coisas não me abalam, não acabam com meu dia, nem me tiram do sério. Com minha antiga banda, por exemplo, cada atraso de um dos músicos me deixava a ponto de explodir. Ficava indignada com a falta de consideração, e isso estragava os ensaios, meu bom humor, o clima geral. Com o tempo me prometi que não deixaria mais este tipo de coisa me irritar, pois, senão, jamais teria paz. E sai mais barato (já disse Augusto Cury) deixar isso para lá. O problema é dos furões, não meu, eles que arquem com as consequências (filme queimado, trabalhos escasseando).

Me expressando assim pareço até ser super responsável e pontual, certo? Mas já disse no início do texto que isso não é verdade. Sou responsável, mas não pontual. Muitas vezes chego uns 10 minutinhos depois, outras raras vezes atraso seriamente. (E muitas outras vezes, chego na hora ou até antes.) Mas sem dúvidas tomei consciência do quanto envolvemos OUTRAS PESSOAS com nossos problemas ao nos atrasarmos, ao não aparecermos etc. Por isso, um atraso meu sempre é acompanhado da preocupação com quem deixei esperando – e de um sincero pedido de desculpas.