sexta-feira, 2 de maio de 2014

Agradar a quem?

Nem sempre é possível agradar. 
Na verdade, é muito fácil desagradar – público, produtores...
E, sem dúvidas, agradar a todos é impossível.


A regra é: sempre haverá alguém insatisfeito. Ponto.

              Lembro de algumas ocasiões em que não agradei como cantora: pela voz, pela interpretação, pelo jeito, por isso, por aquilo. Por estar sem vontade de estar ali no momento (mea culpa); por estar felicíssima de estar lá, mas mesmo assim não agradando, porque... não agradei, oras! Acontece.

              Um exemplo de uma destas ocasiões foi quando cantei, em 2010, em um projeto de forró em Laranjeiras. Acontece o seguinte: adoro forró, gosto muito de cantar este estilo e graças a Deus no meio do ano sempre trabalho bastante em festas juninas, só mandando ver nos xotes, baiões e galopes. Mas nunca fiz parte do circuito de forró, pois não tenho um trio meu; apenas canto como convidada em outros trabalhos. Talvez por isso meu trabalho de forró não tenha agradado naquela noite: eu não fiz como a maioria dos trios faz. Meu grupo não era um trio, para começar. Não tinha uma formação de zabumba, triângulo e acordeon, mas de percuteria, violão e sopro. E não cantei 15 músicas sem parar, por exemplo: fiz intervalos de 5 em 5 músicas, aproximadamente. Achei o resultado ótimo, o repertório bacana (“Bim bom”, do João Gilberto, por exemplo), mas o responsável pelo evento certamente não curtiu, pois nunca respondeu meus e-mails posteriores e comentou com o meu produtor no dia algo do tipo (não lembro exatamente) “a apresentação estava parecendo ‘show’ demais”, enquanto a proposta talvez fosse que fizéssemos algo mais próximo de uma apresentação de bar/restaurante, mais discreta e música para dançar, não para prestar atenção.

               Isso é normal, hoje vejo. Na época gostaria de ter entendido melhor, mas, como já entendi, acho ok não terem gostado. Não me chateia. Acho importante que se tenha visão crítica do próprio trabalho, desde que aliando esta visão crítica às suas próprias convicções. E uma de minhas convicções é: quero fazer outros tipos de trabalho, não um trabalho de forró em uma casa de forró, onde se espera que eu faça assim e não assado. Não. Vou fazer da forma que eu achar melhor. Ou seja: não usando uma formação padronizada de músicos (a não ser que eu ache melhor assim), não cantando 15 músicas sem parar (a não ser que eu e os músicos estejamos empolgados e queiramos fazer assim) e escolhendo canções menos usuais. 
  
                Quando há este conflito de filosofias, é preciso abrir mão de alguma coisa: se não vou conseguir fazer o meu trabalho da minha forma, em um evento específico, então que eu faça meu trabalho em outro lugar, onde eu tenha liberdade total. Ou, então, posso abrir mão de fazer da minha forma e me moldar à forma pré-estabelecida pelo produtor do evento – mas isso não é uma possibilidade. Então, já sabemos qual é a única opção possível.

               Outro exemplo foi quando cantei 'Joana Francesa' a pedido de uma cliente no Mercadinho São José. Ela ficou chateadíssima porque não OLHEI para ela enquanto cantava (sim, acredite, isso aconteceu: a moça reclamou, ignorando o fato de que eu nunca havia cantado a música em público antes, e estava me concentrando para lembrar a letra!). Não posso dar atenção a isso. Não posso considerar isso algo importante, nem levar isso a uma reflexão profunda. Posso simplesmente tentar ser um pouco mais comunicativa com o público, no máximo - ou, melhor ainda, não cantar algo que alguém pediu só para agradar a esta pessoa, que no final ainda ficará ressentida comigo, por pura carência.

“Quem se curva demais ao público fica de quatro para ele, e nunca mais se ergue”, foi o comentário de Hugo Possolo, registrado em um documentário que amo, O riso dos outros. Concordo plenamente. Se eu quiser sempre agradar, se eu ficar sempre preocupada com o que estarão pensando de mim, ferrou. Não poderei me mover. Sempre haverá alguém insatisfeito com alguma coisa, ou até mesmo irritado. Já ouvi críticas de pessoas que não são musicistas, sendo algumas destas críticas quase que ininteligíveis de tão truncadas, mas também já ouvi críticas de "leigos" muito, muito válidas. Cabe a mim fazer o filtro, como já mencionei em um post anterior (“Críticas, sugestões, opiniões”).

Acho importante (ao menos para mim) que se aborde também os fracassos. Os erros, as experiências ruins, as vaias (ainda não as recebi, mas estão aí e podem um dia chegar até mim) e as frustrações são importantes também. Nos ensinam, mesmo que sejam fruto de uma birra ou infantilidade. Não importa. De qualquer forma, nos são úteis, assim como todos os reveses da vida. Nos mostram que não somos invencíveis – porque às vezes nos sentimos assim –, muito menos unânimes. Porque trabalhar com arte é lidar com nosso próprio ego, nosso amor por nós mesmos, nossa vaidade. E alguns episódios, como os que citei, servem para que, minimamente, lembremos: “ei, não estou com essa bola toda!”

domingo, 27 de abril de 2014

O que aprendi com os portugueses sobre música


Estive em Portugal em janeiro. Me maravilhei com inúmeras coisas e me apaixonei pelo país de forma geral. E uma das coisas que trouxe no coração, é claro, foi o fado.

E outra coisa com a qual me maravilhei foi a forma como vi a música ser respeitada.

Certa noite fui ao Chapitô, um lindíssimo local (restaurante, bar, teatro, sede da cia homônima de teatro etc.) em Lisboa. Assim que eu e Alex chegamos o rapaz da casa nos trouxe o cardápio e explicou: “Aqui funciona assim: os músicos vão tocar três músicas. Então, SILÊNCIO. Haverá um intervalo, pode-se conversar normalmente. Depois, mais três músicas. Outro intervalo, e então mais três músicas. Ok?”. Direto, bem educado. E certíssimo.

Bebemos um licor de café delicioso e assistimos ao fado, interpretado por músicos excelentes. Muito agradável.

Acredito que aquela noite tenha sido mais especial ainda porque pude ver o quanto a apresentação foi respeitada. Estávamos ali para ouvir o fado, não para conversar enquanto a música era tocada (na verdade acho que não faz mesmo muito sentido disputar com o volume dos instrumentos. Não se ouve a música, nem se conversa direito.).

O rapaz que nos atendeu (o tal do “schifaizfavoire”, reza a lenda) foi direto, bem educado e esclarecedor. Não deixou margem para nenhuma dúvida: ali a atração era o FADO. Caso quiséssemos conversar – estávamos no Bartô, um dos muitos espaços do grande Chapitô – poderíamos tranquilamente ir para a área aberta e papear admirando a vista da cidade.

Na verdade, isso não me incomoda muito quando estou no papel da cantora – ou melhor, até hoje não incomodou. Acho que exatamente pelo fato de ter cantado muito em barzinho, fiquei acostumada a isso (mas acho que ficarei bem chateada se alguém ficar falando sem parar em uma apresentação minha em um teatro, por exemplo). Acho relativamente “normal” que em um bar com música ao vivo a música seja música de fundo, muzak, música ambiente. Aqui funciona assim, e não adianta se descabelar, acredito. Mas achei o máximo que lá naquele local específico não houvesse nem comida (só bebidinhas), muito provavelmente para não tirar o foco do que estava acontecendo ali – o show. Qualquer barulhinho pode atrapalhar aquela música acústica. O público precisa colaborar, do contrário o fado fica impraticável. Interessante pensar que a falta de amplificação levou a esta atitude de respeito.

Portugal me impressionou muito, em muitos aspectos, e um deles foi a cultura dos portugueses. Milhares de livrarias pela cidade (tentações!), muitíssimos centros culturais, Fernando Pessoa a cada esquina, e música boa. Fomos depois à Tasca do Chico, onde há o tal do “fado vadio”. Apesar de ser vadio (“amador”), a qualidade era excelente, e o bar inteiro se calava para ouvir as músicas. Só gritava de alegria, ao final. Apesar dos bolinhos de bacalhau frios e do lugar estar sempre abarrotado de gente (culpa exatamente da boa qualidade e tradição como local de fado), a Tasca do Chico provou que realmente os lusitanos levam a música a sério.

Não estou querendo dizer que não exista desrespeito por lá (longe de mim falar uma maluquice dessas) ou que Portugal seja o Paraíso (mas tenho lá minhas desconfianças de que seja...  Maluca, eu?): certamente os músicos de lá têm histórias nada bonitinhas para contar sobre perrengues na noite e situações desconfortáveis. Mas achei bonito ver o quanto a música pode ser tratada como coisa séria, mesmo que em ambientes descontraídos.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Na rua



Uma das coisas que mais gostei de fazer desde que comecei a cantar solo foi me apresentar na praça São Salvador. Sem exageros. Adorava cantar no coreto, que desde 2008 eu paquerava, de longe (eu não entendia porque aquele espaço não era tão usado quanto poderia ser). Daí, desde que comecei a cantar por ali, em junho de 2011, às sextas, me senti muito satisfeita – foi um pequeno sonho realizado, afinal.  
Fico lembrando de tudo o que a praça me proporcionou: outros trabalhos – incluindo uma viagem para o Nordeste! –, muitos contatos com grandes músicos, causos, diversão e formação de público (sem dúvidas foi minha maior vitrine). Quando ando pelo Flamengo e por Laranjeiras não é incomum ser abordada na rua por pessoas que já me viram cantando no coreto e querem saber quando voltarei. Fico bem feliz em colher estes frutos.
Infelizmente o Choque de Ordem começou a frequentar a praça todas as sextas (não sei se em outros dias da semana também) e finalmente, depois de algumas situações chatas – voltar para casa sem tocar etc. –, em maio de 2013 desisti de vez de cantar ali. Mas sem traumas, foi incrível enquanto durou!  E (vontade de ser otimista?), acho que talvez estivesse mesmo na hora de parar.
Fiz esta introdução porque ando pensando muito sobre a questão do artista nos espaços públicos. Tenho me empolgado bastante pensando em possibilidades de levar meu canto para a rua – e isso pode acontecer de várias formas, em diversos formatos –, e de levar também outros tipos de expressão artística. Daí juntei as pecinhas e entendi: era por isso que eu gostava tanto de cantar na praça São Salvador. Porque era gratuito, porque o público era espontâneo. Porque não havia exclusão, porque todos que quisessem podiam estar ali. Porque aquele espaço não era de ninguém: era de todos.
Penso que esta minha visão sobre a rua começou a se formar quando, em agosto do ano passado, conheci o pessoal do Ocupa Lapa. A partir daí, e principalmente depois que estive presente neste ato político-cultural, sob um sol inclemente do dia 8 de setembro (um dia perfeito!), vendo meu namorado expondo seus desenhos em plena praça dos Arcos, vendo performances acontecendo e bandas tocando desde a tardinha até a noite, uma semente foi plantada em minha mente.
De lá para cá, todos os dias vejo ou sei de mais alguma coisa (intervenções urbanas, Beach Combers no largo do Machado, Tropa do Afeto) que ratifica meu pensamento de que isso, sim, é muito adequado: precisamos usar a rua, ela é nossa galeria, nosso palco. E os transeuntes, diria que precisam também. Arte no dia a dia. Arte como algo usual, não um luxo, pertencente apenas aos espaços fechados, pagos, às vezes tão frios, apesar de maravilhosos e necessários. Mas ocupar a rua com arte também é necessário, e urgente. Pois é vital transformar nossa cidade, nosso mundo, e não apenas viver nele como se não tivéssemos esta capacidade, nem este direito.
Hoje mesmo (filosofias da hora do lanche), conversando com Alex sobre minha resistência em ser romântica em relação à arte, confessei que, de fato, percebia o quanto a arte fazia com que nós nos tornássemos mais sensíveis e humanos, mais unidos, com menos medo de sermos piegas. Podemos chorar, rir, e isso irá nos libertar. E não há dúvidas de que o mundo precisa de mais sensibilidade. Precisamos nos aproximar, precisamos nos entender melhor, e agora vejo que a arte pode nos ajudar muito.
Há anos vi um vídeo do Badly Drawn Boy tocando na rua, em frente à estação de trem Waterloo. Fui catar o vídeo na internet há uns dois meses, já pensando bastante nestas questões do artista na rua e, ao rever, concluí: “Vou imitar esta ideia assim que der.” Cantar em algum canto do RJ e depois fazer um vídeo disso. Mostrar o desprezo, a receptividade, a indiferença, o encanto. O que importa é comunicar, levar para a rua! Ela é nossa, mesmo que, infelizmente, carreguemos intimamente uma leve impressão de que “não pode”. (Estou lutando contra esta sensação e entendendo aos poucos que "é tudo nosso". E escrever este texto é uma forma de fazer com que isso fiquei ainda mais claro para mim.)
Um último caso, para fechar: pouco antes do carnaval Alex decidiu fazer o lançamento do livro dele aqui no Rio - já tinha acontecido um, em Niterói -, escolhendo para isso um local muito bacana: a supracitada praça São Salvador. Quebrando a cabeça para ver um local que não fosse caro, nem pouco acessível, nem desconfortável, resolveu botar o bloco (ou livro) na rua de uma vez. Decisão acertada! Foi uma noite muito gostosa: no mesmo horário do lançamento estava acontecendo um show do amigo Fabão, que cantava marchinhas no coreto, e neste mesmo dia Alex expôs seus desenhos nos pilares de madeira do coreto, assim que o show terminou. Ou seja, a praça foi utilizada de todas as formas possíveis: como museu, como palco, como livraria. Voltamos para casa felizes, na verdade deslumbrados, percebendo que tudo parecia cada vez mais fácil, acessível, mais a nosso alcance. Sensação de liberdade e desprendimento, que a rua tão generosamente nos dá.


sábado, 8 de março de 2014

Presentes musicais




Hoje estava ouvindo Tincoãs e pensei: que presente ganhei ao ser apresentada ao som deles! Tive uma real sensação de sorte por estar ouvindo aquelas vozes. Este grupo vocal, sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar antes de 2009, só chegou a mim porque um amigo achou que aquela mistura Brasil-África iria me agradar. Na mosca: amei.
Lembrei, então, que este foi um dos muitos presentes musicais que já ganhei. E pensei mais uma vez que, de todos os regalos que já recebi na vida, creio que aqueles ligados à música tenham sido os maiores.
No Natal de 2006 ganhei um grande presente do meu irmão mais novo, que me colocou para ver em seu aparelho de MP4 um rapaz tocando uma música linda no violão de aço: era Richard Taylor, tocando “Gorthon”. Fiquei emocionadíssima ao vê-lo interpretando com perfeição aquela música ao mesmo tempo delicada e forte. Eu tinha tido um dia difícil, e à noite ganhei este presentão para lavar a alma.
Quando eu tinha 16 anos, meu irmão mais velho, sabendo que eu andava cabisbaixa (adolescência, vocês sabem como é!), me deu um presente-surpresa: ele e a então namorada iam ao show do Djavan no atual Citibank Hall (à época, ATL Hall) e eu, morrendo de vontade e sem grana para ir, soube na véspera que iria no lugar dele. Esta atitude incrível, onde ambos deixaram de estar juntos apenas para me ajudar – ele inclusive se privando de ver um showzaço –, me deixou radiante: fui ao show do artista pelo qual eu estava mais fascinada na época, cantei junto, me enchi de energia boa. Para completar, bati muito papo, me distraí, me senti feliz e amada. E Djavan ainda tocou “Se” duas vezes, só para que a noite ficasse ainda mais perfeita.
Badly Drawn Boy é outro presente que ganhei. Obrigada, Ricardo, por ter me apresentado a este e a tantos outros grupos/cantores maravilhosos. Este meu ex-chefe tem um gosto musical tão incrível que nem sei como ele não trabalha com isso, como crítico ou algo do tipo. Com ele, conheci Rosalia de Souza, “Transa” e “Livro”, do Caetano, Sergio Mendes, as maiores pérolas do Gil, João Donato e seu “Quem é quem?”, Tommy Guerrero (OBRIGADA!) e o maior presente de todos: Itamar Assumpção. Valeu! (Não bastasse isso tudo, foi Ricardo quem um dia me avisou sobre um show gratuito da Rita Beneditto na Modern Sound – e lá fui eu, toda serelepe, depois do trabalho, ver pela primeira vez minha cantora preferida ao vivo.)
O Maurício, da Baratos da Ribeiro, também devia estar trabalhando como crítico – se é que não está fazendo isso e eu não sei! –, pois, apesar de várias trilhas da loja não serem exatamente a minha praia, posso dizer que ouvi Ednardo e “A manga rosa” pela primeira vez na Baratos, bem como Sergio Godinho (“Com um brilhozinho nos olhos”), Kings of Convenience e Doris Monteiro. Foi ele, também, quem disse que o primeiro disco do Ivan Lins era incrível. Fui ouvir depois, na internet, e confirmei: realmente era absurdamente bom. Agradecida!
O Vitor, ex-baterista do Pic-Nic (banda na qual cantei por cinco anos), me apresentou aos Secos & Molhados, gravando os dois primeiros discos deles em um CD virgem. Ouvi muito, muito mesmo, ficando totalmente viciada naquelas melodias lindas. Ia ao trabalho e a qualquer lugar, todos os dias, com aquele disquinho no meu CD player.
A verdade é que são incontáveis os presentes: Bethi, ao tocar “Clarice” para mim, no violão (“você não conhece?”); Alex, ao colocar no aparelho de som o CD “Le fil”, da Camille; Fabão, ao cantar “Mas quem disse que eu te esqueço”; Ná Ozzetti, ao cantar no festival de Tatuí de 2011 e me pegar de surpresa com aqueles arranjos e aquela voz (pensei que eu só iria cantar, e não sair de lá com um novo ídolo); Sansão, ao nos mostrar o Ponto de Partida cantando “Circo marimbondo”; Daíra, ao cantar “Cicatrizes” naquele estúdio caseiro; Paulinho, ao chamar minha atenção para a letra de “Meu guri”; Tiago e Rodrigo, ao me mostrarem o vídeo de Roberta Sá cantando “Pelas tabelas”; Marcelo, ao me levar para ver a mesma Roberta com o Trio Madeira Brasil no Circo Voador.
E o melhor de tudo em relação a estes presentes é que, por serem imateriais, nenhum ladrão pode levar. E, como não ocupam espaço na gaveta... que venham mais!







quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O que fazer quando...

- Você está cantando e vê na plateia alguém dando um bocejo daqueles?
- O músico que toca contigo te dá uma bronca no palco, no meio do show?
- Você vai colocar um cartaz em um restaurante para divulgar um show seu e o dono do estabelecimento e o garçom começam a discutir na sua frente (“quem deixou?”, “ora, mas eu pensei que pudesse...”)?
- Te chamam para tocar em um local, de graça, e não fornecem nem ÁGUA (“Infelizmente não tenho como...”)? [Tempos do rock and roll... Novamente, a culpa não é de quem chama, mas de quem aceita!]
- Alguém pede, assim que o show acaba, uma palinha particular no ouvido – “canta por favor essa que eu tanto gosto, só para mim!”? Um pedido de um show a capella, e particular, ainda por cima... [Isso não aconteceu só uma vez!]
- Você vai cantar em um bar e simplesmente tem que fazer QUATRO sets? (!!!)
- O dono do estabelecimento onde você está tocando cai em cima de você e de todos os músicos, ocupado que está em sair aos socos com um cliente?
- Um músico pede que você o substitua em uma apresentação em um barzinho – mas, de quebra, pede: “Ah, aproveita e pega com o Fulano [dono do local] a grana que ele ficou me devendo da semana passada!”? [Que programão! Tocar em um lugar onde o dono fica devendo aos músicos! Bom sinal!]
- Te ligam (ligação a cobrar) para tocar ganhando couvert, e ainda pedem que você faça a produção (chamando outros músicos, organizando o transporte)?
- Alguém vai dar uma canja e canta oito músicas?
- Os cartazes que você colou em Santa Teresa começam a sumir? [Melhor acreditar que é algum fã, ao invés de pensar que é alguém que não pode te ver nem em foto!]


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Lírica

Lembro que quando era pré-adolescente (já fanática por música) estranhava quando alguém dizia que gostava de alguma banda por causa das letras. Se algum amigo falasse que amava Legião Urbana e só mencionasse as letras do Renato Russo, sem comentar sobre a parte musical, eu achava (e verbalizava) o seguinte: “Ué, mas não é música? Texto é coisa para livro. Música é som, pô!”. Chegava a ficar ligeiramente indignada – garota enxaqueca! –, afinal o que me importava não era nada disso, eu só queria saber do som. Ficava muito impressionada quando um amigo, fã do Bad Religion, dizia “ah, nem gosto tanto assim do som, mas as letras são tão boas, políticas”. Eu achava que “certo” era pensar como eu, que me interessava pela melodia, antes de qualquer coisa. Letra era consequência. E por eu ter esta relação com a música, acreditava ser um pouco equivocada a preferência pela letra, ou a hipervalorização desta. Uma visão de música bastante radical, especialmente para quem nem mesmo ouvia música instrumental e amava música pop. E mais radical ainda para quem já havia escrito muitas poesias e havia desejado ser escritora quando crescesse.
Mantive este pensamento durante alguns anos, e foi engraçado me recordar desta antiga filosofia e constatar que, hoje, discordo bastante dela.
Continuo me deixando cativar mais pela melodia em uma música (não me incomoda se o arranjo for simples, por exemplo, nem se os músicos não forem virtuoses, ou se a técnica vocal não for muito boa). Mas, mesmo continuando a valorizar a melodia antes de qualquer coisa, penso no quanto digo que amo essa ou tal música pela letra, ou no quanto sempre, sem exceções, fico emocionada ouvindo aquela música do Milton – muito por culpa da belíssima letra. Sei que gosto muito, muito mesmo de Caetano e de Gil pela maestria com que unem letra e música. Sei que o que me encanta em “Carinhoso” não é só o que Pixinguinha fez, mas o que João de Barro escreveu também. Fico deliciada ao ver o quanto escrita e música podem se unir em um casamento perfeito.
Há poucos dias tive o prazer de conhecer uma das casas onde morou Fernando Pessoa, e a visita mexeu bastante comigo. Vi seu quarto, sua estante, sua escrivaninha. Vi os desenhos de Aldous Eveleigh, ali expostos, todos eles retratando Pessoa. Mas, principalmente, li suas poesias, escritas nas paredes do centro cultural. E ouvi algumas delas pela boca de atores, músicos e escritores, declamando em vídeo as belíssimas poesias deste cara incrível (um projeto muito bacana, aliás). Saí da Casa Fernando Pessoa com uma constatação pessoal, uma certeza: não há nada mais belo que a poesia – e isso está sendo escrito e pensado por alguém que, depois de não querer mais escrever poesia, começou a ficar com “birra” de poetas. Mas na casa onde morou Pessoa entendi (quase) tudo. Percebi que quando estou lendo um livro e algo de repente me emociona, é porque naquele trecho o escritor fez poesia. E percebi que, realmente, a escrita não tem um papel pequeno em minha vida. Posso ter fugido um pouco do assunto, mas o que quero dizer é que a letra de uma música, para a pessoa que sou hoje, é muito mais do que uma forma de cantar a melodia sem ser por solfejo. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Prazo de validade

No post anterior abordei a questão da beleza no mundo (comercial) da música.
Agora quero pensar-escrever sobre a questão da idade neste mesmo meio.
Falar sobre idade pode ser dolorido para algumas pessoas – afinal, nem para todo mundo pensar sobre o passar do tempo é algo tranquilo. Mas acho que bom mesmo é colocar este assunto na roda. Afinal, por que não encarar algo tão real? Ficar mais velho é algo democrático, pois acontece com todos os que permanecem aqui, na jogada – só quem sai antes não passa por isso. Mas se estiver em campo, vai ter que enfrentar. Vamos lá!
Algumas pessoas acreditam que existe uma idade-limite para ser artista. Mais especificamente, pois posso falar de cadeira, acreditam que existe uma idade-limite para que um cantor fique famoso (esta palava é meio brega, tenho sempre vontade de colocar aspas). É preciso “aparecer” ainda fresco, juvenil, novinho. Este pensamento tira do foco a qualidade do que está sendo feito e cria uma preocupação em “correr atrás do tempo perdido” (para quem ainda não “chegou lá”) e talvez também exerça uma pressão para quem é muito novo e ainda está pensando na possibilidade de seguir a carreira musical. (Lembro que certa vez li na revista Rock Press que o Peter Buck, guitarrista do R.E.M., tinha começado a tocar guitarra em uma idade “no mínimo avançada”, segundo o autor do texto: aos 21 anos. Fiquei chocada. Aquilo era considerado muita idade? Deve ter sido por isso que comecei, cheia de pressa, a tocar guitarra aos 12 anos, mesmo que até hoje não me dedique a isso – teria sido muito melhor ter começado a tocar mais tarde e ter feito a coisa direito, que nem o Peter Buck, né?)
Não acredito neste pensamento. Por que a idade seria uma trava? Não entendo. Não é sobre arte que estamos falando? Ou sobre a profissão de modelo? (Bem, os artistas que mais vendem atualmente, de fato, são quase modelos: muitas fotos para capas de revista, imagens gigantescas nas Lojas Americanas, outdoors, muita publicidade para alimentos, cursos e produtos estéticos – opa, tudo a ver!) A arte permite tanta coisa, é tão aberta e possível que acho absurdo que algumas pessoas queiram restringi-la a poucos, fazendo desta algo puramente visual, no pior dos sentidos (bem distante do sentido visual das artes plásticas!). Com certeza muitos dos artistas ainda desconhecidos que não são jovens o bastante para os critérios do mercado se sentem desestimulados e decepcionados com tamanha futilidade na área que tanto amam.
Falando sobre mim neste quesito idade, é interessante ver que até com artistas independentes e nada famosos como eu há uma pressão neste sentido: alguns conhecidos já se referiram à minha avançadíssima idade – 30 anos agora – como se isso fosse um sinal de fracasso (por eu não ser “famosa”). Esta inclusão involuntária no rol dos fracassados não me agrada nem um pouco, e é claro que declino (intimamente) do convite para entrar neste clube. Não me sinto mal por não ter 15 anos, não me sinto velha – apesar de às vezes brincar que sou velhinha por adorar ficar em casa – e nem acho que esteja errada por não ser famosa. Não me pressiono para fazer meu trabalho focando em ser “famosa” da forma como esperam. Acho que às vezes é até frustrante para algumas pessoas saberem que meu foco é ter credibilidade e uma carreira sólida. Isso deve parecer sem graça, talvez, e pouco ambicioso – como se exatamente ter credibilidade e solidez não fosse uma enorme conquista! Contei isso para mostrar que existem vários níveis desta pressão que menciono e esta é sentida até por quem está fora da roda viva da fama.
Engraçado como lembro que esta questão de idade sempre me incomodou. Sempre pensei: isso é algo tão efêmero; as pessoas que se fiam muito nisso estão se arriscando demais. E a decepção, quando a juventude passar? O que irá restar quando isso acontecer? .
Não acredito muito em idade como impedimento para quase nada. A cada dia que passa vejo mais e mais pessoas provando que é possível realizar coisas incríveis em qualquer idade. E principalmente na arte.
Já mencionei aqui em um post (onde falava sobre algumas pérolas que já ouvi) que certa vez uma pessoa sugeriu que eu investisse no filão da Wanessa Camargo, por eu ter “cara de menina”. Quanto tempo aquilo duraria? Um ano? Dois anos? É a tal da questão do efêmero. E acho que a arte nada tem de efêmera. É tão incrível que dura muito mais do que nós. Isso é que nos motiva a deixarmos nossa marca, a fazermos bonito (referência ao título do post anterior) para que nosso trabalho fique muito tempo por aí, encantando e emocionando outras pessoas.
(Impossível não pensar que talvez este assunto - idade dos artistas -, de tão raso, talvez nem devesse ser mencionado. Mas estou me contradizendo. Como escrevi no início, vamos dialogar!)