domingo, 17 de abril de 2016

Ecad, melhora isso aí

Estes dias entendi porque o Ecad é tão malquisto, e resolvi contar o causo que me levou a esta compreensão.
Já adianto que no final dá tudo certo, e que esta nem é lá uma grande história. Mas que é um bom exemplo de um modus operandi estranho, isso é. E por isso acho até que tenho a obrigação de escrever sobre.
Usarei nomes inventados para contar a história.
Bem, o lance é o seguinte: eu estava fazendo a produção de um show em parceria com um amigo, em um teatro muito bacana, um espaço que adoro. Fomos contemplados com duas datas, através do edital da instituição. Porém, tratava-se de um edital sem financiamento, onde a instituição apenas disponibiliza o espaço.
Digo isso apenas para que fique claro que aquele show pedia uma boa dedicação para que, além de bonito, fosse autossustentável (sem prejuízos). Nós, músicos, trabalhamos muito: ensaiando; pensando em revezamentos entre nós para não precisarmos de bilheteiro; pedindo ajuda ao técnico de som da casa, visto que não poderíamos contratar um; divulgando via internet e fazendo assessoria com jornais; conseguindo equipamento emprestado com um amigo; conseguindo carona com este mesmo amigo-santo para transportar os amplificadores; e mais um bando de detalhes.
Um destes detalhes era o Ecad, que eu precisava resolver.
No dia 23 de março enviei um e-mail ao órgão:

Olá Giulianne,
Dia 5 de abril farei um show no ---- com o músico ----. Gostaríamos de acertar com o Ecad em um contrato pós-borderô (visto que é a forma mais econômica para nós, músicos independentes).
Como proceder? Envio por aqui mesmo a lista do repertório?
Grata,
Guidi

Eu havia enviado o e-mail me dirigindo à Giulianne, pois havia sido ela a pessoa que me atendeu em relação a um show que fiz em 2013, no mesmo espaço. Mas quem respondeu ao meu e-mail, neste mesmo dia (23 de março), foi a funcionária Rizoflora, que me enviou dois formulários para preenchimento: Coleta de Dados para Execução Pública Musical + Roteiro Musical.
Demorei uma semana para enviar os dois formulários, visto que ainda estávamos ensaiando e decidindo o repertório. Assim que decidimos enviei os dois arquivos por e-mail, no dia 1º de abril. Logo recebi resposta (mesmo dia) dizendo que os arquivos não vieram anexados (eita! Falha nossa), e os reenviei prontamente, poucas horas depois.
Fiquei no aguardo. Até o dia 04/04 eu não havia recebido resposta, e era véspera do show. E sem que eu estivesse com a questão do Ecad resolvida, o teatro não poderia permitir que o show acontecesse. Liguei para o Ecad para saber do meu caso, e consegui falar com Rizoflora. Ela disse que responderia no mesmo dia o meu e-mail. Perguntei: “Mesmo? O show é amanhã.” “Sim, amor”, respondeu ela.
No mesmo dia recebi o e-mail dela, com a notícia:

Boa tarde, Guidi!
O valor do recolhimento autoral, do evento ----, que ocorrerá no dia 05/04/2016, no ---- é de R$ 216,00.
No aguardo.            
Rizoflora

Fiquei assustada com este valor (que comeria boa parte de nossa bilheteria) e repliquei, alegando que já havia alertado sobre nossa preferência pelo pós-borderô:

Olá Rizoflora,
Sempre opto, como optei desta vez (e já havia notificado a vocês via e-mail, há 12 dias), pela opção pós-borderô.
Fico no aguardo de mais explanações, obrigada.
Guidi

A resposta foi impressionante:

Boa tarde, Guidi!
Trocamos e-mail no dia 23/03/2016 e em nenhum momento isso ficou acordado entre nós, ate porque para a entrega de borderô posterior ao evento é necessário fazermos o termo de garantia mínima, o qual você paga 30% antecipado e o complemento se houver uma receita maior do que o cobrado antecipadamente. No dia 01/04/2016, que recebemos seus formulários preenchidos, os quais hoje estou dando tratativa. Contudo, o máximo que podemos fazer, uma vez que o show é amanha é lhe conceder um desconto, o valor autoral fica em R$ 172,80.
No aguardo.
Rizoflora

E lá fui mostrar que sim, eu havia avisado sobre o pós-borderô:

Olá Rizoflora,
No e-mail abaixo (enviado dia 23/03) eu digo claramente:
"Gostaríamos de acertar com o Ecad em um contrato pós-borderô (visto que é a forma mais econômica para nós, músicos independentes)."
Por favor, leia abaixo [o e-mail na íntegra estava encaminhado].
Apesar de achar que eu estava falando com Giulianne (pessoa que me atendeu em 2013), você foi a pessoa quem respondeu a este mesmo e-mail, e foi por este e-mail que continuamos o diálogo.
Obrigada,
Guidi

Depois disso a situação melhorou:

Boa tarde, Guidi!
Você pode apresentar o borderô após sem problemas, mas será necessário fazermos a Garantia mínima. O valor do termo fica em R$ 64,80 . Por gentileza nos encaminhar os documentos abaixo:
- CPF
- RG
- Comprovante de Residência.
Atenciosamente,
Rizoflora

Enviei os documentos escaneados e neste mesmo e-mail perguntei, apenas: “Qual o próximo passo?”. Rizoflora respondeu:

Boa tarde, Guidi!
Configurarei o termo e lhe encaminharei para imprimir duas vias, rubricar as três primeira paginas e assinar a última, entregará aos meus cuidados no endereço abaixo, onde fará a retirada do boleto da Garantia e após a apresentação do evento nos encaminhará o borderô para analisarmos.
 End: Avenida Almirante Barroso, nº 22 - Centro/RJ.
 Ok?
Atenciosamente,
Rizoflora

Já eram 16h28, o Ecad deveria fechar entre 17h e 18h. Perguntei:

Olá Rizoflora,
Hoje eu poderia ir até que horas ao Ecad?
E amanhã? A partir de que horas e até que horas posso ir ao Ecad?
Apesar de ser pior amanhã (visto que é o dia do show), creio que seja o mais provável.
Obrigada

A resposta:

Boa tarde, Ingrid!              
Segue em anexo o termo [de Responsabilidade], trabalhamos de 9h às 18h.

Após receber este e-mail, decidi que resolveria a questão no dia seguinte. Pedi a meu namorado que fizesse isso por mim, e exatamente pensando nesta possibilidade foi que sublinhei no e-mail a pergunta sobre os horários: não queria que ele, que nada tinha a ver com aquele assunto, se deslocasse até o Ecad e desse com a cara na porta ou não encontrasse Rizoflora. Eu não poderia ir porque tinha uma prova às 10h, e da prova iria pegar os amplificadores para o show, e então seguiria para a passagem de som (e foi assim que aconteceu: saí da prova, peguei os   amplificadores no Flamengo e na Lapa, com a carona do amigo que emprestou os equipamentos, e fui para o teatro. Absolutamente nenhuma brecha de tempo).              
No dia seguinte, chegando ao teatro, meu namorado me encontrou por lá e me contou: Rizoflora não estava no Ecad no momento em que ele foi até lá (bem como imaginei que poderia acontecer) e foi dito a ele por outra funcionária que não havia nenhum responsável ali que pudesse assinar o Termo de Responsabilidade. Esta funcionária disse que não haveria problema, pois eles enviariam o termo assinado por e-mail, e já que o principal eles podiam fazer, que era emitir o boleto para que o mesmo fosse pago e o show fosse liberado. Ele seguiu para o banco, fez o pagamento e me encontrou no teatro.              
Apesar de toda esta correria bem no dia do show, a apresentação rolou muito bem. Foi bem cansativo, ficamos nos revezando na passagem de som para cumprir com as necessidades da produção, mas contamos com a colaboração de muitas pessoas também na bilheteria (inclusive pessoas que iam se apresentar como convidadas no dia), e o namorado ficou na entrada do teatro e na venda dos CDs. Deu tudo certo. Não tivemos prejuízo, reembolsamos a grana do Ecad para o namorado, tudo bonito.                  
Eis que uma semana depois, dia 12 de abril, recebo o seguinte e-mail:

Boa tarde, Prezados!
Até a presente data não recebemos o borderô, referente ao evento do dia 05/04/2016. Sem o mesmo até o fim do dia, emitiremos em cima da capacidade do local.
 No aguardo.
Atenciosamente,
Rizoflora

É verdade! Eu precisava enviar o borderô assinado por mim e pelo teatro. Havia ficado tão extenuada com a produção do show (e principalmente com esta história do Ecad) que me esquecera do compromisso pós-show. Mas preciso dizer que achei esta forma de lembrete bastante ruim. Quase uma ameaça, não? Afinal, teríamos que simplesmente pagar aquele valor inviável para nós (R$ 216,00) se eu não tivesse acessado meu e-mail, se eu tivesse passado o dia fora de casa, se eu estivesse sem internet.
Fiquei impressionada com a falta de jeito do Ecad para lidar com o artista/produtor/casa de show etc. Só respondendo meu e-mail quando liguei para pedir que o fizessem, na véspera do show. Dizendo que eu não havia falado nada sobre o pós-borderô, sendo que eu havia falado. Dizendo que eu poderia ir lá entre 9h e 18h, e isso não era verdade (visto que meu namorado foi até lá às 12h30, aproximadamente, e saiu sem o Termo assinado, apenas com o boleto). Dizendo que teríamos que pagar a porcentagem do Ecad calculada em cima da casa cheia (como se o teatro tivesse vendido todos os ingressos), caso não enviássemos até o fim daquele mesmo dia o borderô.
Felizmente eu estava em casa e enviei o borderô na mesma hora. Recebi a confirmação de Rizoflora de que estava tudo ok.
Se de fato eu não tivesse visto aquele e-mail e me fosse cobrado o valor de R$ 216,00, acho que infelizmente eu chegaria a meu limite e faria um escarcéu. Seria a gota d’água, depois de uma produção extenuante e um atendimento bem ruim por parte deles, ter que dar um dinheiro que eu não tinha para uma instituição visivelmente desorganizada (não vou nem entrar em outras questões relativas ao Ecad, bem mais espinhosas – todos sabem quais são!). Mas que bom que não foi preciso.
Ah, não que eu faça questão, mas até hoje não recebi o Termo de Responsabilidade assinado. Nem pedi isso, mas é engraçado ver como o Ecad é exigente com o artista, mas talvez não seja assim tão exigente consigo e nem se preocupe tanto em cumprir com todas as suas obrigações.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

São Paulo é uma festa



Sampa aniversariou anteontem, e eu não havia me tocado de que precisava escrever, mesmo que não muito, sobre o que sinto por esta cidade. Minha pouca vivência em SP é inversamente proporcional ao meu fanatismo por este lugar. E depois de ler o texto de Clara Averbuck (“Ei, São Paulo”) e, logo em seguida, ver o clipe de Anna Tréa (“Paulista”), entendi que eu também precisava falar sobre minha admiração por Sampa.
São Paulo é o seguinte: me deixa acesa e me dá frio na barriga. Por quê? Porque é muita expectativa, é muita possibilidade. É muito para a minha cabeça, e eu quero cada vez mais deste muito, como uma viciada que não mede as consequências.
Acho que tudo começou em 2011, quando, voltando de um festival em Jundiaí, o amigo Sandro Dornelles me arrastou para o sarau Lua Nova, na capital (à época, no bar Varal). Depois de ouvir várias pérolas naquela noite (três cantoras interpretando “Coco do coco”, delicioso), em dado momento Renato Braz chegou e, como se sua simples presença já não bastasse, o cara vai e canta “Ipê”, uma de minhas canções preferidas. Entendi que era assim que a coisa funcionava em São Paulo. Entendi que ali havia ambientes onde era possível ir do samba coco ao Belchior, sem preconceitos.
Confesso que o cinza já me fez ficar depressiva no primeiro olhar (pobre SP, a culpa nunca foi sua, o cinza estava dentro de mim). E o engraçado é que hoje este mesmo cinza me preenche. Quando o vejo não me vem mais tristeza; acho-o tão forte, tão necessário para mim, para o mundo... E hoje, ao chegar na cidade, me sinto privilegiada. Me sinto sortuda, como se estivesse ganhando um presente especial. Aproveito qualquer ocasião para poder estar por lá. Crio cada vez mais necessidades, invento qualquer desculpa. Faço qualquer negócio para estar vivendo um pouco do que Sampa tem.
E quero aproveitar ainda mais, muito mais. Tenho sonhado com uma vida dupla. Metade aqui, metade lá. Aproveitando ao máximo esta capital tão efervescente e cheia, que a cada vez que me vê me contagia com mais alguma coisa boa. Alguma canção, alguma peça, algum show, claro, mas, mais do que isso, unovo tipo de pensamento. Uma nova abertura musical, filosófica. Sempre volto com mais uma peça do quebra-cabeça, ou, ao contrário, com um tormento novo, uma questão nova para pensar.
E por todas estas questões novas e possibilidades que sei que virão até mim em qualquer estadia na cidade, ao chegar no Tietê (momento em que sempre me vem a música “Quem é cover de quem”, de Itamar Assumpção, na cabeça - ele é a voz que inconscientemente escolhi para representar esta cidade) sinto uma ansiedade boa. E também andando pela Paulista, à noite, sozinha; ou de tarde, acompanhada. Vendo casais gays de mãos dadas na Augusta. Andando pelo Centro Histórico, conhecendo a Biblioteca Mario de Andrade, vendo o Metá Metá na Casa de Francisca, ouvindo um choro no Ó do Borogodó, me refrescando no bebedouro do Parque Trianon, vendo a exposição sobre Dona Ivone Lara no Itaú Cultural, a exposição sobre Augusto dos Anjos na Casa das Rosas, vendo e ouvindo Suzana Salles no Teatro de Arena. Uma ansiedade que não estraga nenhum momento, mas, ao contrário, faz com que eu o viva com mais intensidade, mais sede, aproveitando-o inteiramente. 
Vou deixar a parte mais romântica para o fim, uma graça para quem conseguiu atravessar estes parágrafos melosos. Em junho de 2014 ganhei um par de ingressos para o (ótimo) filme Riocorrente, de Paulo Sacramento, que se passa em São Paulo. Por que ganhei este regalo? Porque ao responder à pergunta “qual sentimento eu carrego por São Paulo”, fui sincera, derramada,  quiçá ridícula, mas, de novo, sincera, e minha declaração de amor foi uma das ganhadoras da simpática promoção. É com ela que fecho este texto, que eu já queria ter escrito há muito tempo, para poder espalhar aos quatro ventos que eu, simplesmente, amo São Paulo.
Carrego uma saudade enorme - uma saudade de quem nunca esteve verdadeiramente lá, por muito tempo, por inteiro, e só pôde sentir levemente o gosto da cidade. Carrego esta saudade (misturada com lamento) porque sei que perco muito por não viver esta metrópole: há um universo imenso que certamente me traria muitas delícias, e que, só para me fazer doer, é próximo demais daqui (e por isso me parece tão distante).
Por enquanto, São Paulo é apenas isso: uma grande saudade-lamento.”

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Foi mal aí

Tenho tentado muitas coisas. Contato com pessoas que admiro, trocas musicais com ídolos consagrados, bem como com artistas independentes. Pessoas que não conheço (ou que mal conheço) e que são muito boas no que fazem. Nisso, me toquei do seguinte: é possível, é bem provável, que eu esteja sendo considerada uma chata. É possível que nesta minha tentativa de criar novos laços, de fazer novas parcerias, eu esteja recebendo a etiqueta de pessoa incômoda -- ou eu esteja vestindo esta roupa, depende do ponto de vista.
(Apenas explicando: não chego a grudar, apenas tento uma vez. Se der, deu. Não insisto, pois não gosto que insistam comigo. Mas ao menos uma vezinha eu vou lá e tento.)
E, ao pensar sobre estas minhas tentativas, entendi o seguinte: não importa se vão achar que estou dando em cima. Não importa se vão achar que estou pegando no pé, que estou sendo uma loser que não se toca. Se estou sendo a pessoa mais aporrinhante da paróquia. Por que não importa? Porque, foi mal, gente: tenho que me movimentar e buscar parceiros, a vida é curta, o tempo voa, quero fazer muito, e para isso não dá para ficar me privando de experiências possivelmente bacanas em nome do meu orgulho. Pode até doer caso eu saiba que alguém está me achando inconveniente, mas é dor que dá e passa. Já os resultados bons ficam na memória por muito tempo, mudam a vida para melhor.
Correr atrás de coisas boas, de pessoas que gosto e admiro e com quem quero ter contato implica ser ignorada. Implica ouvir algo diferente do que esperava. Implica não conseguir, ficar triste e frustrada momentaneamente. Mas esta mesma atitude me proporcionará momentos lindos e amizades, músicas novas, encontros inesquecíveis.  E muitas vezes correr atrás das pessoas que gosto e admiro significa conseguir o contrário de tudo isso aí que enumerei. O resultado pode ser exatamente o que eu queria, ou algo ainda melhor, que eu nem sabia que poderia acontecer. Não me guiar pelo ego (pois, segundo este danadinho, nunca se deve ficar na posição frágil, ou seja, naquela de "pedinte", de correr atrás de alguém, de sair do pedestal para olhar no olho) fará com que eu consiga muito. Mas é preciso estar preparada para sofrer. É preciso entender que não é só por ter certeza de que este é o certo a se fazer que, plim! Em um passe de mágica tudo irá se resolver. Não, as pedras no caminho continuarão, e por isso é muito importante estar bem consigo para não desanimar nem se achar um zé mané durante o processo -- processo, aliás, que dura para sempre, pois sempre vou querer novas parcerias. Então é preciso ser forte.
A poeta Mary Oliver fez a provocação "Tell me, what is it you plan to do with your one wild and precious life?". Me pus a pensar, e vi que não pretendo sair frustrada, muito menos ficar viciada em minhas frustrações, remoendo-as com um prazer masoquista. Quero realizar a maioria de meus sonhos (leia-se "planos", se preferir), mesmo que o medo de ser feliz ainda exista. Eu quero que ele vá embora e libere o espaço para as boas oportunidades que surgem volta e meia. 
É preciosa demais a vida, e acho que esqueço disso muito frequentemente. Se não me esquecesse, não me importaria tanto com as pedras no caminho, com as respostas ásperas (que podem, simplesmente, não significar nada além de uma pressa, indisposição ou qualquer outra coisa sem nenhuma relação com a minha pessoa). Não me importaria nem um pouco com as respostas que nunca recebi. Com as desconfianças que posso ter despertado. 
Ser vista como inconveniente e seus derivados é um preço muito pequeno a se pagar para colocar em prática aquilo que quero e preciso realizar.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Legitimidade

Há tempos escrevi um texto sobre a minha necessidade de trabalhar como tradutora, revisora e digitadora, paralelamente à minha vida de cantora. No texto eu valorizava esta situação, pois de fato é bom evitar colocar qualquer tipo de pressão na profissão de musicista; é muito bom poder dizer “não” a propostas ruins de trabalho; é muito bom não cantar em casas de shows desonestas, coisa que muitos precisam fazer, pois a única fonte de renda destas pessoas é aquela, a música. No texto falei sobre o lado bom de ter um trabalho paralelo, mesmo que administrar duas funções (ou mais) às vezes seja cansativo, e mesmo que, é claro, eu deseje viver de minha arte.
Avaliei, também, que eu havia mudado e entendido, com o tempo, que não ser cantora exclusivamente não era algo ruim, e talvez nem mesmo me prejudicasse tanto. Na verdade talvez até me ajudasse artisticamente, pois, tendo outra renda, eu poderia fazer na música somente aquilo que eu quisesse. E tempos depois de escrever aquele texto entendi ainda um pouco mais a questão, e hoje penso que a dedicação a atividades distintas não diminui uma pessoa, mas a fortalece, a torna polivalente.
Relembrei deste assunto porque há tempos venho elucubrando sobre algo que, desconfio eu, está implícito naquele texto: a busca pela legitimidade.
A escritora Gretchen Rubin foi a responsável por me abrir os olhos em relação a esta inútil procura. Li seu livro Projeto felicidade ano passado, e uma passagem me chamou bastante a atenção. Gretchen diz: “Eu tenho a preocupação de me sentir legítima.” Neste trecho, um diálogo com sua irmã, a autora fala sobre sua dificuldade de se definir como escritora, pois isso não fazia com que ela se sentisse legítima (leia-se: legitimada pela sociedade – esta foi minha leitura, ao menos). Me identifiquei com esta fala.
Minha busca por legitimidade é um pouco diferente da busca de Gretchen, mas a ânsia é igual. Minha necessidade de me sentir legítima está relacionada à minha graduação – que não é em Música, nem em Artes Cênicas, nem mesmo em Letras, mas em Comunicação; – está relacionada a todos os empregos ruins que tive, trabalhando com coisas que, nem por um segundo, me interessavam (vendas, atendimento ao público). E, por fim, esta ânsia por legitimidade se faz presente quando me sinto diminuída por não ter, hoje, um emprego fixo.
Entendi que, talvez, ao escrever aquele texto eu tenha querido dizer, inconscientemente: não sou apenas cantora. Sei fazer e faço outras coisas.
Acho que eu nunca havia utilizado esta palavra para me avaliar: legitimidade. Gostei de descobrir “o nome da doença” (ha!), porque isso me ajudou a avaliar melhor esta necessidade que criei. Mas ainda resta a dúvida: onde será que surgiu esta vontade de provar algo a alguém? Onde foi que comecei a achar que o que eu fazia não podia ser levado a sério (não podendo ser um caminho a seguir)?
Engraçado lembrar que minha infância foi toda coroada por músicas (principalmente aos 10 anos e com toda força a partir daí), ouvindo-as e cantando-as sem parar, sem a menor dúvida de que aquilo era o que eu mais gostava, que aquele era o meu universo favorito... E por que aquilo não seria uma opção de profissão?
Não sei dizer direito porque (desconfio que tenha algo a ver com a forma como o rock, minha escola, é marginalizado e tratado como sub-música. Mas há vários outros pequenos fatores, que tenho que avaliar mais), mas hoje minha busca por legitimidade quase que não exclui as artes, mas exige que estas sejam coroadas por graduações, especializações. Exige que estas sejam legitimadas por editais, patrocínios, peças profissionais, shows no Sesc. Fora disso, não há legitimidade, diz meu íntimo.
Este pensamento totalmente “tiro no pé” é, além de um equívoco e uma ingratidão imensa com tudo o que já alcancei, uma forma eficaz de se manter no mesmo lugar. A tristeza imobiliza (ao menos no meu caso). Apenas quando acredito que tenho toda a capacidade de alcançar coisas boas, me levanto e vou atrás do que quero.
Posso ser compreensiva em relação a mim e entender que, por já ter colocado muita expectativa em minha carreira musical – mais especificamente, quando eu tinha minha banda de rock, Pic-Nic –, com o tempo acabei me tornando mais madura e menos sonhadora. E isso fez com que eu quisesse, depois, com meu trabalho solo, não uma fama estrondosa, mas uma carreira longa e prolífica. Apenas isso. Tudo isso! E digo: é muito bom não colocar expectativas, não sofrer à espera de uma pessoa, um olheiro, um empresário, que o tiraria do limbo e o colocaria em outro lugar bem mais justo, com reconhecimento e grana. É muito bom ter expectativas muito mais relacionadas a desafios pessoais do que a fatores que não posso controlar (como o reconhecimento de terceiros). É incrível saber que continuarei cantando por muito tempo, visto que preciso fazê-lo, independentemente do fato de vender muitos CDs ou não, de me tornar conhecida como cantora ou não. O que não é saudável é esta visão leve sobre o meu trabalho ser, no íntimo, um desmerecimento deste. Não dar valor à minha atividade mais especial. Continuar cedendo à pressão da sociedade, continuar achando que o que faço é um pouco risível, e ao preencher qualquer ficha que pergunte minha profissão, escrever “jornalista” – ironicamente, uma profissão que jamais exerci. E o canto, que me acompanha desde os 16, que fique escondido.
Profissionais da música sofrem bastante esta deslegitimação. Diálogo comum: “Você trabalha em quê?”, “Sou músico”, “Só músico, mesmo?”. Há, como disse certa vez um amigo instrumentista, a impressão de que aquilo que os músicos fazem no palco é uma “brincadeirinha”, que não exige nenhum tipo de preparação prévia. A música seria, na visão de muitos, um hobby, uma diversão; uma atividade que talvez nem deva ser paga, visto que muitas vezes tem este caráter de entretenimento para o público e que parece não ter exigido nenhum esforço de nenhum dos envolvidos. A música está intimamente ligada ao sorriso, às emoções, à mudança de estado de espírito, e isso, que estranho, para muitos não merece grande mérito.
Eu ia terminar dizendo que é relativamente fácil deixar para lá a opinião dos outros, a falta de crédito/respeito de terceiros em relação à profissão de musicista, e que bem mais difícil é lidar com o próprio preconceito com aquilo que se faz. Mas acho que nenhuma destas duas coisas é fácil. Afinal, se para mim, hoje, ainda existe uma busca de legitimação dentro daquilo que faço – como se o meu canto, por si só, não merecesse toda a minha legitimidade, a minha aprovação –, muito provavelmente isso aconteceu porque em algum momento entendi que o que eu fazia e amava não tinha plena aprovação da sociedade.
Espero que depois de escrever este texto, depois de organizar um pouquinho os pensamentos e depois de ter que esmiuçar mais meus preconceitos, eu passe a me respeitar mais como artista e como pessoa, e que esta busca inútil por legitimidade, esta ânsia que nunca será saciada, se torne cada vez menos importante.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Ser e deixar de ser; se inspirar e se jogar

Vez ou outra digo a alguém: sou careta. Não é exatamente um motivo de orgulho, mas também não penso ser isso uma vergonha. Então afirmo numa boa, e costumo dizer, em seguida, que ao mesmo tempo tento me expandir cada vez mais, ser menos quadrada. Estou mudando, aos poucos. Além disso, adoro constatar coisas sobre mim, e descobri há não muito tempo que falar sobre meus pontos fracos me deixa mais forte.
Bom, e por que me considero careta? Porque ainda me sinto muito presa artisticamente. Ainda não consigo colocar para fora nem um décimo do que gostaria. Ainda não me expresso da forma como desejo. Há ainda muita palavra presa na garganta, há ainda muito o que arriscar. Há ainda receio de possíveis julgamentos. Há ainda dentro de mim muita besteira me impedindo de seguir, livre, o meu caminho. Mas sei que tudo tem seu tempo, e sei que este período vai passar, dando lugar a outro. Me vejo evoluindo, aos pouquinhos, e sempre razoavelmente consciente dos meus atos e das minhas amarras.
E entendo, também, que sou muito mais careta em minhas ações artísticas do que em minha filosofia de vida. Na verdade, em meu cotidiano não me considero careta. Posso dizer que tenho uma boa compreensão sobre a diversidade da vida e não me choco muito facilmente com as diferenças. Na verdade, amo os contrastes. Hoje em dia sou assim. Depois de muito tempo convivendo com pessoas-chave, fui examinando meus preconceitos, e eles não passam mais impunes por minha mente. Os detecto rapidamente, quase sempre entendo porque estão ali e então tento transformá-los. Até os preconceitos que não são tão condenados, de forma geral, como o preconceito contra intelectuais (isso aí era recalque, e já mencionei isso em um texto) ou pessoas ricas (talvez seja recalque também), eu consegui quase que eliminar, mesmo que tardiamente. Também são preconceitos e também faziam com que eu me afastasse de várias pessoas; faziam com que eu fosse injusta.
Digo isso para ilustrar melhor o seguinte: é a ousadia de fazer que está me faltando. Porque a timidez está sendo mais forte do que a vontade de realizar minha arte da forma que quero e necessito. Estou deixando a inibição falar mais alto, e isso é algo sério (principalmente para um artista) e precisa ser resolvido. Mas, felizmente, minha cabeça está bem aberta. Gosto das transformações pelas quais o mundo tem passado. E creio que agora seja a hora de aceitar que posso, como o mundo, mudar e me transformar também.
O curioso é que exatamente por ser eu ainda muito inibida, tenho ídolos que são os maiores adeptos da “sejogância máxima” [copyright Suely Mesquita] deste mundo. Amo David Byrne e Fred Schneider, por exemplo. Estes dois representam a ousadia, a facilidade de sair do lugar comum, a liberdade extrema ao compor, ao interpretar, que eu tanto almejo. André Abujamra é outro que em todos os seus trabalhos me surpreende. Também admiro demais Amanda Palmer, seu discurso, suas letras, sua atitude combativa. E por alguma razão louca sempre pensei que não poderia me inspirar minimamente em figuras como estas. Pensava haver um lugarzinho certo, ali, onde eu me encaixava, bem distante daqueles que admiro. Não poderia nem me aproximar destes artistas, quanto mais usá-los como referência. Mas há alguns meses percebi que eu posso, sim pegar o que acho que há de mais bonito naquele artista incrível. Posso pegar um tiquinho da forma escrachada de escrever daquele ali. Posso pegar a cara de pau daquele outro. Posso pegar a delicadeza do fulano e misturar com a força do sicrano. Adquiri esta consciência. Falta vencer a dificuldade de colocar isso em prática.
Acho que finalmente entendi que não tenho o que temer. Porque o resultado do que eu fizer inspirada em meus ídolos não ficará igual a nenhum deles. Uma vez que o ingrediente “eu” for acrescentado, a receita, quando pronta, não terá o mesmo gosto de nenhum deles. Será uma mistura de vários elementos aliada à minha voz, à minha interpretação, unidas em uma composição feita por mim (ou não).
Acho que sempre tive medo das influências, sempre tive receio de copiar, sempre tive receio de ter referências demais e até acabar plagiando sem querer. Esta quantidade grande de medo infelizmente não me tem sido muito útil, em vários aspectos.
Percebi que me via como se eu não pudesse escolher como quero me expressar. Como se houvesse algo místico me guiando, independentemente de minha vontade. Exemplo: se tenho tendência a ser melosa, ferrou, não conseguirei escapar disso. Que cilada! Não penso mais assim. Se não gosto do meu lado melosa, eu posso e devo mudar. E se gosto, devo assumi-lo. Mas se for apenas um resquício de algo que já fui e não sou mais, não faz sentido ficar sofrendo, me expressando através de uma linguagem que absolutamente não me traduz.
(Aliás, há tempos Suely Mesquita – de novo ela – replicou um texto muito bacana, de David Cain, chamado “A pessoa que você costumava ser ainda dita o que você faz”. O texto, curiosamente, começa abordando a questão do gosto musical para exemplificar os lugares nos quais nos colocamos, estanques, sem perceber que podemos transitar por onde quisermos; basta para isso que nos questionemos.)
Outra possibilidade interessante – para mim e para quem mais se sentir desta forma, preso a uma fórmula, a um jeito de ser, a uma sina inventada – é avaliarmos se, de fato, somos sempre de um só jeito. Eu, ao menos, tenho certeza que em algumas situações sou a mais solta, a mais ousada. Em outras sou a mais quietinha. Em alguns dias sou a que mais dança na festa. Outros dias, a que passa a festa toda conversando. Não existem lugares fixos. Acho que só existem se quisermos. E eu não quero.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Pensar 2015 para se reinventar em 2016

Recordar é reviver. O que fiz em 2015?

Janeiro:

- No dia 2 foi ao ar minha entrevista para Tiago Alves, do Armazém Cultural, programa da MEC AM.
- Gravei um vídeo cantando “Jogo da vida”, canção de Dudu Godoi, com o próprio, no quintal aqui de casa. Comecei bem o ano.
- Participei do show de Silvan Galvão no IFCS, belíssimo show.
- Participei do show de Silvan Galvão na Rua do Mercado.

Fevereiro:

- Me apresentei com o Coletivo Cavalo Preto no Eco Som. Cantei “Cabotino coco” e contei com Claudia Montelage, Juliana Peres e Monalise Monteiro na percussão.

Março:

- Participei do show de Silvan Galvão no Leviano, na Lapa.
- Saiu uma bela entrevista minha no jornal A Nova Democracia. Grata, Rosa Minine!
- Último show do CD Temperos no Centro de Referência da Música Carioca Artur da Távola. Lindo lugar! Cantei “Manera fru fru”, do Fagner. Amei! E este show teve direção cênica do incrível Victor Seixas.

Abril:

- Cantei no Espaço Aqua no show do Cavalo Preto. Contei com o querido Xandão Fernandes no violão.
- Participei do show de Silvan Galvão no Bola Preta.
- Eu e Claudia Holanda montamos o show Tudo quer viver, e o estreamos no Godofredo. Cantamos várias músicas da Claudia e outras várias de Cátia de França. Contamos com André Barros no violão e Ana Sucha na percussão. 

Maio:

- Cantei com Claudia Holanda na apresentação do Cavalo Preto no Espaço Aqua.
- Participei do programa Show de bola, na Rádio Tupi, ao lado de Xandão Fernandes, Carol Faria e Silvia Tardin.
- Participei do show de Silvan Galvão no La Carmelita, na Lapa.

Junho:

- Participei do show de Dandara Ruffier e Evan Megaro no Beco das Garrafas.
- Eu e Silvan Galvão montamos o show Paneiro paraense, que estreou dia 28 deste mês no terraço do Parque das Ruínas. Foi um lindo fim de tarde, com convidados especiais (Laura Canabrava e Marcelo Ceará) e uma lua estonteante para encerrar.

Julho:

- Me apresentei com Claudia Holanda no show Tudo quer viver, desta vez no projeto Quartanauta, de Leo Rivera. Teatro Popular Oscar Niemeyer, Niterói. Teve participação do Rio Pandeiro para fechar o show, foi demais. E saíram duas matérias sobre o show, no O Fluminense e no A Tribuna.
- Participei do show de Dudu Godoi no Costa Brava (evento Sexta Cultural).
- Matéria no jornal O Dia sobre artistas paraenses no Rio (Silvan Galvão) e artistas cariocas (eu, Cissa de Luna) disseminando a música do Norte por estas bandas.

Agosto:

- Gravei um vídeo da canção “Pendure as armas”, com Dudu Godoi e Cacá Guifer.
- Participei do show do Forró de Rabeca, na Rua do Ouvidor.
- Participei do Sarau do Cahon, em Itacoatiara.
- Participei do show de André Gardel, no Semente.
- Matéria no jornal Diário do Pará, onde artistas do Rio de Janeiro (eu, Cissa de Luna, Noites do Norte) falaram sobre a influência da música amazônica em seus trabalhos.

Setembro:

- Gravei o vídeo de “Beije” com o amigo Thiago K, no Parque Trianon.
- Cantei com o Terno de Grupo, em Jundiaí, em dois shows no mesmo dia. Recomecei minha parceria com Sandro aí.

Outubro:

- Eu e Silvan novamente fizemos acontecer o Paneiro paraense no Parque das Ruínas.
- Gravei em vídeo três canções em voz e violão com Sandro Dornelles, “Volta e meia”, “Lumiáfora” e “Do encontro à despedida”.
- Cantei com o Terno de Grupo em Várzea Paulista.
- Gravei vocais no CD de Alvinho Lancellotti, ao lado de Laura Lagub e Maíra Garrido.
- O projeto que eu fiz (orgulho!) passou no edital do Centro Cultural Justiça Federal. Ou seja: em 2016 haverá duas edições do show Paneiro amazônico no CCJF. Sim, o nome mudou, mas ainda é o meu projeto com Silvan Galvão, de carimbó, guitarrada, lundu e toada.
- Cantei no Festival da Canção Francesa, promovido pela Aliança Francesa. Cantei “Battez-vous”, do grupo Brigitte, e fiquei em segundo lugar na semifinal.
- Resenha positiva do CD no site Ziriguidum.
- Cantei no Festival de MPB de Ilha Solteira ao lado de Sandro Dornelles. Não ganhamos prêmios. Descobri um festival incrível, cheio de talentos. Eu e Sandro gravamos um vídeo da canção “Samba do pé”, em uma das ruas de Ilha.

Novembro:

- Participei do Fejacan (Festival Jacarezinhense da Canção) novamente, desta vez ao lado de Sandro Dornelles, e em duas canções.
- Cantei novamente com o Terno de Grupo no Sakura (Várzea Paulista).

Dezembro:

- Cantei com o Terno de Grupo de novo, em Jundiaí, para fechar o ano.  
- Fiz um show aqui em casa com o violonista André Barros. Foi show + lançamento de dois livros do Alex Frechette. Eu já queria fazer isso há tempos, e a experiência foi muito boa. Três amigos ajudaram a filmar a primeira canção do show e fizemos um vídeo bacana, que foi editado prontamente e disponibilizado no dia seguinte. Fechou o ano!

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O que não fiz? Bem, não consegui lançar o livro deste blog, que era um plano para o final de 2015. O livro sairá apenas depois do carnaval do ano que vem. Mas fiquei feliz por revisar, fazer a seleção dos textos e entender que, de fato, este vai sair! E será o primeiro de muitos.

O que entendi? Que com parcerias a vida fica quinhentas vezes mais fácil. No que diz respeito ao meu trabalho musical, creio que esta tenha sido a lição mais valiosa: as parcerias fazem com que as coisas não sejam sacrificantes, penosas. Podemos fazer esforço, trabalhar, suar, sem sofrer. Podemos realizar muitas coisas sem ir à falência, sem ficarmos com vontade de desistir de tudo depois de tanto se esfalfar. É claro que ainda tenho algumas resistências e muitos vícios, ainda sigo muitos padrões que dificultam minha vida, mas não posso negar que já consegui realizar várias ações de forma muito mais leve.

Para 2016 espero poder me dedicar ainda mais ao que faço, e sem me preocupar muito em me divulgar, em fazer a produção executiva. É claro que precisamos ser multifuncionais por uma questão de sobrevivência, mas que isso nunca sufoque a parte artística. É preciso cuidado e equilíbrio.

E que em 2016 eu consiga ser ainda mais proativa, cara de pau e corajosa. Como disse Elizabeth Gilbert, que eu consiga amar muito mais a prática de meu ofício do que temer o fracasso, a rejeição ou qualquer outra besteira relacionada a ego. Que eu coloque em primeiro lugar minha realização pessoal.

Bom ano novo para todos nós.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Sobre a colaboração espontânea


Outro dia fui fazer uma participação no show do Forró de Rabeca, lá na rua do Ouvidor, e algo interessante aconteceu. Antes do show começar, fiquei bastante tempo conversando com a Ciça, que faz o trabalho essencial de passar o chapéu pelo público – o show é aberto, então a grana do público tem que ser arrecadada assim – e ela me explicou que, com toda a paciência, tinha que ficar explicando vez ou outra para os frequentadores: “pessoal, é melhor colaborar com R$ 3,00 do que ter que ir para um espaço fechado e ter que pagar R$ 10,00 ou 15,00 para entrar, vamos colaborar para que o show possa continuar acontecendo na rua?” A coisa tinha que ser quase que didática para que funcionasse minimamente bem.
Pouco antes de eu entrar no palco Ciça já estava na função, e eu quis colaborar humildemente. Só tinha uma nota de R$ 10,00 e voltaria de ônibus, então queria doar R$ 6,00 e pegar R$ 4,00 do chapéu, de troco. Alcancei Ciça, que neste momento tentava convencer um rapaz com uma lata de cerveja na mão a colaborar com o forró. Vi rapidamente que o guri risonho se esquivava, fazendo gracejos, e quando expliquei a ela (e não a ele) que eu pegaria o troco - Ciça até disse, gentilmente: “não precisa, você vai cantar!” –, o mesmo rapaz que não estava colaborando ocupou-se rapidamente de mim e disse: “Olha, hein, Deus está vendo! Pegando o troco...”. Apertei uma de suas mãos e, olhando em seus olhos, perguntei: “Você já colaborou?” A resposta: “Se eu colaborei? Não...”
Descrevo este acontecido porque me chamou muito a atenção o fato do rapaz achar ser um tabu o ato de colaborar pegando o troco. Acho que talvez para ele, na verdade, colaborar espontaneamente, em si, já seja algo bem novo e estranho.
Isso me fez pensar muito. Talvez estejamos lidando com a colaboração espontânea de uma forma ainda um pouco envergonhada-desengonçada. A amiga Maga Schüle já havia comentado isso comigo. Perguntei a ela certa vez sobre alguns aspectos de se trabalhar nos metrôs cariocas: qual era o valor mais doado, que tipo de coisas bonitas/grosserias ela e seu parceiro já tinham ouvido, e se os doadores tinham o hábito de colaborar pegando troco. Maga respondeu a esta última dizendo que apenas uma vez isso havia acontecido por aqui. Com esta informação ficou mais uma vez confirmada, para mim, a timidez/falta de hábito/falta de jeito do brasileiro ao colaborar com a arte que se faz na rua/no metrô; a falta de jeito com a colaboração espontânea.
Fiz uma campanha de crowdfunding em 2012 e foi muito bacana. Ainda não havia tantas pessoas se utilizando desta ferramenta quanto hoje, mas consegui arrecadar o valor que havia estipulado. E neste processo notei que vários amigos souberam, deram a maior força, compartilharam, mas, por ainda não entenderem muito bem aquela filosofia, aquela ideia de colaborar com o valor que pudessem, acabaram não colaborando.
Para muitas pessoas, ainda hoje, em 2015, a ideia do financiamento coletivo ainda é um pouco estranha. Colocar R$ 2,00 no chapéu ainda incomoda. A ideia de colaborar na Vakinha ainda não desce muito bem.
É doido, mas parece que preferimos um preço institucionalizado. Preferimos o preço protocolar, preferimos a obrigatoriedade. Por quê? É muito mais interessante, para mim, poder escolher um preço que caiba no meu orçamento e na minha realidade. Gosto muito de colaborar com projetos que ainda vão acontecer; gosto muito de poder ajudar para que um show que acontece em um espaço aberto continue acontecendo.
Seria interessante considerarmos o fato de que é muito mais jogo nos ajudarmos, colaborarmos, do que ficarmos todos insatisfeitos com as poucas opções, ou com as opções caras. Estamos em uma época de grande efervescência cultural, e talvez isso se deva a esta atitude de “colocar o bloco na rua”, em vários sentidos, seja na praça, seja colocando um projeto na roda; e talvez a culpa disso seja essa busca pela ajuda dos amigos e admiradores. Se já está dando certo, mesmo que ainda com bem menos adesão do que poderia ter, imagine o que acontecerá quando a colaboração espontânea se tornar ainda mais... espontânea?