terça-feira, 14 de abril de 2015

Fragilidade


Já ouvi algumas coisas não muito agradáveis desde que comecei a cantar. Mesmo que algumas valham a pena ser esquecidas, escrever sobre algumas delas é bacana também, uma vez que isso pode ajudar a entender um pouco melhor a situação e (aí sim) deixá-la para lá. E, uma vez que passei por estas experiências, que ao menos eu possa dividi-las para que virem um texto, né?
É verdade que quando você se propõe a fazer algo (qualquer coisa), é como se você estivesse arranjando sarna para se coçar. Atuar, fazer, colocar a mão na massa é pedir para ser criticado. Colocar a cara a tapa dá nisso: levar tapas.
Mas isso não quer dizer que, por esperarmos bordoadas, fiquemos imunes a estas.
Estas situações quase sempre fazem com que tenhamos que lidar com nossa própria fragilidade. Tive que lidar com a minha várias vezes, e tenho que fazê-lo ainda hoje, porque nada para: nem eu, nem as críticas. Nem minha vontade de evoluir, nem a necessidade de observação das pessoas. Nem os riscos que corro (e que espero que aumentem a cada dia, para que eu seja cada vez mais livre), nem o hábito de alguns de menosprezar o outro.
Sim, porque existem críticas e críticas. Já falei sobre isso aqui, antes: acho importantíssimo ouvi-las, acho importantíssimo lidarmos com esta fragilidade que mencionei, acho importantíssimo que o artista, um vaidoso por essência (que geralmente fala de si 24 horas por dia – e nem sempre consegue fazer isso com pouca vaidade), saiba que pode melhorar sempre. Nunca se “chega lá”, na minha opinião: o aprendizado é contínuo, bem como a manutenção constante de nossas habilidades. Estacionar não é uma opção. Mas existem observações que são agressões, vontade de ferir.
O lance é que eu deveria estar falando das críticas do público, certo? Mas não quero repetir assunto. Vou falar sobre aquelas que vêm dos próprios componentes da banda.
Lembro que certa vez, em 2012, estava conversando com um dos instrumentistas que tocava comigo e eu disse a ele que não queria mais fazer shows na noite. Eu estava, por esta época, com um show marcado na Finep, que seria só de canções inéditas. Estava bem feliz com essa perspectiva, e dividi isso com ele (por que, meu Deus, por quê? Hahahah!): “Só quero fazer shows como o que a gente vai fazer na Finep, de agora em diante. Só quero fazer este meu trabalho.” A resposta dele foi: “Que trabalho?” Totalmente chateado com a perspectiva de não tocar mais em barzinhos, sobrou agressividade para mim: ele discordou, quis me convencer do contrário, e ficou puto o resto da noite. Mais do que o grande mau humor dele (característica marcante da figura), o que me machucou foi este desdém: “que trabalho?” Li (e infelizmente li certo) o seguinte: “você é uma cantora de barzinho, pare de querer evoluir.”
Evoluir significaria (como de fato significou) fazer muito menos shows (média de um por ano – sem brincadeira), ou seja: ele e todos os músicos que tocavam comigo trabalhariam muito menos. Mas, infelizmente, não posso me preocupar com isso, uma vez que não mudar meu caminho significaria continuar fazendo um trabalho que não tem nada a ver com o que almejo. E doeu, doeu muito saber que o que importava era o prazer dele em tocar, e não minha realização pessoal (que seria uma evolução para todos, certamente, musicalmente falando). Importava que ele, um cara que certamente ganhava muito mais grana com música do que eu (não dá nem para comparar a quantidade de trabalho que tem um instrumentista com a que tem um cantor), queria tocar todos os sábados. Não importava o fato de eu querer fazer aquilo direito, fazer shows bonitos de uma hora (e não de três), onde eu mostraria tudo o que tinha de melhor. Eu, na verdade, deveria ficar na minha, até hoje, sem gravar um CD e sem inventar moda.
(Exemplo do quanto não lidei bem com isso: esta pérola me foi dita em uma quinta ou sexta-feira, e lembro de me encontrar com uma grande amiga, domingo à noite, e ainda estar mal e digerindo aquele desdém completamente desnecessário.)
É fragilidade demais ficar mal um final de semana inteiro por este tipo de coisa? Sim! Preciso criar uma carapaça e ficar mais resistente. Mas mesmo assim não sou obrigada a conviver com instrumentistas intratáveis. Não sou obrigada a vivenciar momentos ruins nos ensaios. Tenho todo o direito de querer um clima bom dentro do meu trabalho musical.
(Nem sempre levei a carreira musical com profissionalismo, é verdade. Apenas a partir do final de 2011 - o “momento da virada”, quando resolvi gravar meu CD - comecei a ter uma postura verdadeiramente séria e focada. E, desde então, observei uma melhoria na minha vida, e muito mais alegrias surgiram, graças a convivências fáceis e respeito mútuo.)
Já ouvi de um senhor alcoólatra (e falei sobre isso aqui) que era “muito fraquinha”. Já ouvi instrumentista que “nem era tão foda assim” (já é uma evolução em relação ao “fraquinha”, né?). Já ouvi, e continuarei ouvindo, milhares de coisas que me deixarão mal, em dúvida, triste, desmotivada.
Mas se estas histórias puderem virar "causos" (textos), ao menos serviram para alguma coisa.

2 comentários:

  1. Fraquinha? Tu? Hahahaha, tá de sacanagem, né? Caraca mulher, tu é uma gigante no palco, afinadíssima, original, dona do seu canto, enfim, sem rasgação de seda, vc se apropria do seu canto e do seu palco como muito poucos cantores, que já estão com o nome estabelecido no mercado, conseguem fazê-lo sem parecerem caricaturas ou sombras de outros artistas. A evolução é algo que faz parte do círculo da vida, afinal, um dia já fomos macacos, mas perceber que precisa evoluir é constatação de profissionais, ou seja, quem quer apenas atuar como coadjuvante no filme da vida... tocar, tocar e tocar todos os dias para ganhar mais... é o suficiente. Só bêbado mesmo pra mandar essa. Mas, realmente valeu pelo bom texto.
    Bjks Guidão.

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    1. Ceiça <3
      Obrigada pela força de sempre. Um beijão

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